terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

DA AUSENCIA PATERNA - Prováveis consequências

A figura paterna é para a psicanálise freudiana elemento central por configurar-se naquilo que deve estruturar a personalidade do sujeito. 
“Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai.” (Freud, em O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÕES, 1930). A importância paterna é indiscutível mesmo no senso comum se pensarmos que uma mãe precisa se sentir segura o suficiente para cuidar dos filhos de maneira bem sucedida. 
“Um modelo muito interessante é o da formação da natureza, onde a fêmea prenha busca um local seguro para se aninhar e receber seu filhote. Nesse momento contará com o resguardo do macho que a protegerá das ameaças externas e proverá recursos para que ela se ocupe em assegurar as melhores condições possíveis para o desenvolvimento deste que nasce. Uma fêmea sem esse resguardo nunca poderá cuidar do que precisa ser cuidado.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Nos grupos de primatas mais evoluídos, como é o caso dos chimpanzés que compartilham de 98 a 99 % de DNA com os humanos, existe uma clara estrutura de liderança do macho mais velho, que oferece proteção às fêmeas e aos machos mais jovens. No entanto, na raça humana o papel do pai nas famílias parece estar sofrendo severa transformação, especialmente nas últimas décadas. Existe uma decadência muito clara da presença paterna nos lares que parece, a cada dia, ameaçada de extinção. Isso fica evidente tanto através da prática clínica quanto na vida cotidiana. Falo aqui deste mesmo humano que vem ameaçando de extinção também o chimpanzé, assim como outras espécies de animais.
A ausência do referencial masculino pode acarretar inúmeros prejuízos que por mais que sejam ignorados pelo olhar social, ainda assim se pronunciam diante de nossos olhos desde a dificuldade de definição da sexualidade até nos casos de delinquência. Essa ausência pode tornar a criança aversiva às orientações dos adultos, tanto de representantes femininos quanto masculinos. Com isso pode se tornar um adulto que não consegue se adaptar às regras básicas de convívio, interpolando as duas posições: ora subserviente, ora revoltado com as regras.
Assim como Melanie Klein (1882 — 1960) bem nos orientou sobre o fato de que, quando a experiência com a realidade não pode ser vivida de maneira bem sucedida o sujeito não consegue integrar os objetos do mundo externo que fica dividido em amável e maldoso. Com isso também a figura paterna ausente fica desintegrada e segundo Klein: “É preciso uma identificação mais completa com o objeto amado e um reconhecimento mais completo de seu valor para que o ego perceba o estado de desintegração a que o reduziu, e continua a reduzir.” (Klein, 1935).
O modelo masculino se faz essencial na formação e estruturação da personalidade da criança e é desse referencial que angariará recursos para elaboração de complexos importantes no funcionamento psíquico. A ausência desse modelo pode dificultar a capacidade de estabelecer parâmetros de relacionamento que podem obstruir a capacidade de vinculação saudável na vida adulta. Ainda que este modelo possa não vir necessariamente do pai biológico é importante que essa outra figura masculina não seja um avô, um tio ou qualquer outro parente consanguíneo, já que a importância dessa figura está ligada aos processos edípicos. Esse homem representará a imago daquele que vem possuir a mãe e com isso libertar a criança do risco do incesto. Assim, essa figura deve encontrar-se num namorado da mãe que seja afetuoso e presente, ou um aspirante de padrasto, por exemplo.
Na elaboração do complexo de Édipo, a ausência desta figura significa que nada se interpõe entre a criança e sua mãe, o objeto desejado, que, sem obstáculos, é toda sua. Essa criança em que sofreu uma severa privação da figura paterna deve ter dificuldades em reconhecer limites e aprender regras de convivência social, já que o pai é o representante desse limite e a mãe configurará naquilo que se deseja.
“O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo.” (Martino, 2013).
Quando esse modelo não pode estar presente, a criança tem grande dificuldade na identificação e definição sexual, ou de gênero. A criança que de início vive uma configuração bissexual buscará na figura paterna uma referencia tanto de identificação (o que eu sou) quanto de escolha pelo par amoroso (quem eu quero ter) da vida adulta. Na prática clínica fica claro que pacientes que apresentam “queixas de impotência sexual, ou quaisquer que sejam as questões que impedem um desenvolvimento saudável de uma vida sexual e até mesmo, certo casos de homossexualidade, em sua maioria, carregam históricos extremamente conturbados, no que diz respeito às vivências de descobertas da vida sexual.”. (Martino, PARA ALÉM DA CLÍNICA, 2011).
Dessa maneira a presença de ambos os pais é o que permitirá que a criança viva de forma mais natural possível os processos de identificação e diferenciação, o que em sua ausência de um deve ocorrer a saturação no papel do outro.  Na ausência do pai, por exemplo, ocorre a saturação da presença da mãe, minimizando e até anulando a personalidade da criança que quando adulto tanto pode se tornar subserviente a todos, quanto tornar-se um narcisista arrogante para compensar o sentimento de inferioridade.
“É de extrema importância que, ao se arriscar nesse abismo chamado bebê, a mãe conte com um alguém (marido/pai) que mantenha a mão seguramente dada. De outra forma existirá sempre um grande risco de se perder nesse abismo. A mãe e o bebê se confundem, e essa importante experiência de discriminação entre um e outro só pode ocorrer com a entrada de mais alguém (o pai) na relação.” (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
Quando trato aqui de presença, ou ausência, quero me referir ao fato de que a necessidade afetiva paterna está muito além da simples presença física. No entanto essa presença do pai, que a princípio, deve ser uma ideia no interior da mãe, e assim, transmitida para o bebê como autoconfiança daquela mãe que se sente segura por poder contar com seu marido, deve ser sucedida do encontro com o pai físico no plano sensorial. O bebê carece de ouvir a vós, sentir o cheiro, sentir o toque daquele que cumpre essa função fundamental na estruturação de sua personalidade. “Não se pode criar uma imagem interna sem um representante no mundo externo.”. (Martino, em PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 2012).
No início da vida do bebê ele se relaciona com pessoas e coisas numa forma narcisista de ligação e isso acontece num processo natural da evolução dos vínculos, se repetindo de alguma forma, na vida adulta em cada nova relação travada pelo sujeito. A próxima etapa inclui outra forma de ligação da qual Freud (1856 – 1939) denominou ligação objetal, onde existe a possibilidade de ligar-se ao outro não mais por identificação, mas agora levando em conta também as diferenças. “...onde anteriormente se sentia como uma extensão da mãe, como sendo parte de um só, numa ligação por identificação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
A psicanálise nos ensinou que o processo de evolução da ligação por identificação para a ligação objetal deve ocorrer a partir da introdução da função paterna na relação, que até então era entre dois e agora expande-se na perspectiva da tríade, requerendo maior capacidade. Existe então uma quebra de narcisismo, onde se configura impreterivelmente um afastamento entre mãe e a criança que a partir daí deve começar a buscar novas experiências para além do triangulo. “Experiência dolorida de se viver! Mas a mãe dedicada cuidará para que o bebê se magoe o mínimo possível nesse distanciamento e assim possa viver o luto da relação.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO 2015).
Contudo, o desempenho dedicado da função paterna inclui a capacidade de tolerar o sentimento de inveja gerado pela atenção da mãe que se concentra na chegada do filho. Ser um pai realmente presente é uma tarefa que demanda grande dedicação. Não é simplesmente prover o que se encontra na ordem material, mas consiste em se colocar presente no apoio e no amparo emocional nessa experiência tão delicado que é a chegada do filho, assim como a manutenção da vida que brota da união do casal.
Bem, não é só a figura paterna que parece estar em decadência nos lares, mas a figura materna também vem se ausentando e a maioria das crianças parece ser hoje criada na melhor das hipóteses por babás, quando não, crianças com menos de seis meses são deixadas, muitas vezes o dia todo e todos os dias, em instituições publicas ou privadas.  ...e assim, continuamos a condenar a criança pela incapacidade do adulto em cuidar de seus próprios filhos.

Freud, S. 1930. O MAL-ESTAR NAS CIVILIZAÇÔES, em OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1969-80)
KLEIN, M. 1935. UMA CONTRIBUIÇÃO À PSICOGENESE DOS ESTADOS MANÍACO-DEPRESSIVO. In:____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996.
MARTINO, Renato Dias. PARA ALÉM DA CLÍNICA. Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
_____ . PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_____O LIVRO DO DESAPEGO, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Dicas de Filmes - CONFIA EM MIM

O filme traz a história Mariana (Fernanda Machado), uma talentosa cozinheira que desacreditada por sua mãe, quanto ao seu sucesso, tem grande dificuldade em acreditar em si mesma. Mari se apaixona por Caio (Mateus Solano), um rapaz sedutor que a incentiva a realizar seu grande sonho: abrir seu próprio restaurante. No entanto, com isso vive uma grade decepção em sua vida. Um filme intrigante que enfatiza a dificuldade da autoconfiança e suas consequências. Se não confia em si mesmo qualquer outra pessoa pode parecer mais confiável. 





FICHA TÉCNICA
Roteiro: Fabio Danesi
Gênero: Suspense
Duração: 1h 25min
Ano de lançamento: 2014




Prof. Renato Dias Martino
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O AMOR ‘LÍQUIDO’ NA PÓS-MODERNIDADE

Reportágem de Harlen Félix, para o jornal Diário da Região: Domingo, 08.01.17

W. Orlandeli
Um dos críticos ferrenhos do capitalismo na pós-modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 - 2017) é responsável pelas reflexões mais realistas sobre as relações humanas na atualidade. Em sua obra, ele cunhou o termo ‘líquido’ para expressar a fragilidade e insegurança que prevalecem sobre as relações em diferentes níveis, dos vínculos amorosos aos familiares. Em livros como Amor Líquido (2004), Vidas Desperdiçadas (2005) e Medo Líquido (2008), Bauman mostra como o consumismo e as redes sociais têm contribuído para tornar os relacionamentos descartáveis e gerar níveis de insegurança que aumentam a cada dia.

Zygmunt Bauman
(1925 - 2017)
Para o sociólogo polonês, os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em ‘rede’, que podem ser desmanchados a qualquer momento. E, desta forma, estabelecendo cada vez mais um contato apenas virtual, as pessoas desaprenderam a manter relacionamentos a longo prazo.



Liquidação humana
Para o psicoterapeuta, escritor e professor universitário Renato Dias Martino, a sociedade vive um ciclo vicioso tão severo que é difícil ter esperança em reverter essa situação no âmbito social. Os recursos disponíveis hoje podem, no máximo, estabelecer uma mudança no campo individual.

Segundo o psicoterapeuta, grande parte das crianças que nascem hoje não foram desejadas. Assim, nascem sem ter espaço na vida dos pais. “Nos primeiros anos de vida, a criança precisa viver junto da mãe. A falta dessa relação gera prejuízos severos. Sem uma mãe dedicada e um pai presente, qualquer relação dessa pessoa será prejudicada”, comenta.

Para Martino, as pessoas não nascem sabendo amar. “O amor é algo construído. Só se aprende a dar atenção ao outro quando se recebe atenção. E a maioria das pessoas só recebeu atenção quando havia uma recompensa. Um sociedade pautada pelo amor líquido é uma sociedade formada por pessoas em liquidação. Está todo mundo barato e exposto”, diz.



Por outro lado, ele ressalta que a internet não pode ser demonizada por conta dos problemas que pautam as relações humanas. “Há uma piada que diz que um sujeito que foi esfaqueado processou a Tramontina. Vivemos em um ciclo vicioso que é difícil ser identificado pelas pessoas”, comenta.


Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866
prof.renatodiasmartino@gmail.com 

sábado, 17 de dezembro de 2016

SOBRE AS DIFICULDADES NA REALIZAÇÃO

A questão que determina se um sujeito está sendo bem sucedido ou não, está ligada à obstrução do fluxo de realizações. O termo realização aqui referido diz respeito ao ato de realizar, ou seja, tornar real. E é justamente através das realizações que é possível a alguém fazer parte da realidade. Um sujeito que não realiza estará sempre inseguro quanto à sua própria realidade. Logo de início é importante lembrar que para que seja efetivada a realização é imperativa a inclusão do outro, isso, pois é ele que confirmará se isso é mesmo real. “Realizamos um sonho, impreterivelmente, no encontro com o outro.” (Martino. 2015).
E ainda, quando menciono aqui realizações, não estou alocando o conceito no nível material, mas cogito sobre as realizações que estão num plano da constituição emocional e afetiva. Até por que o autor que aqui escreve não acredita no valor daquilo que possa existir no plano material sem guardar um significado afetivo que o preencha de sentido e possa dar-lhe vida.
Num primeiro momento poderíamos levantar a questão de que o sujeito que não é capaz de tolerar perder pode escolher não realizar nada. Aquele que teme perder, pode não querer arriscar e quem não arrisca não pode ser bem sucedido. Isso deve configurar-se como consequência da incapacidade no desenvolvimento do autorreconhecimento. A capacidade de autorreconhecimento só pode ser desenvolvida a partir do reconhecimento vindo do outro. Somos o resultado de elementos inatos transformados pelo contato externo. 

Se uma criança não arrisca seus primeiros passos nunca aprenderá andar. Nesse caso o olhar crítico do outro é um elemento fundamental para o fracasso da experiência. Uma criança que se desenvolve sob os cuidados de um adulto que a critica frequentemente, terá grande dificuldade em desenvolver sua autoconfiança. O reconhecimento de cada passo, por mais imperfeito que possa parecer, é o que servirá de esteio para o próximo passo. Por outro lado, o olhar crítico, é tóxico nas fases tenras do desenvolvimento de qualquer que seja a capacidade.
No entanto, a questão é bem mais profunda e demanda de uma análise mais cuidadosa, já que na realidade o maior impedimento para a realização parece estar dentro de nós mesmos, ainda que seja a partir do resultado de um vínculo nocivo com o outro. Na impossibilidade de receber a continência suficientemente boa, através de um ambiente acolhedor, a predominância da tendência desitegrativa pode proporcionar a severa fragmentação do eu. Na desintegração da personalidade, uma parte se volta contra a outra impedindo a possibilidade de realização.
Isso acontece quando uma parte consegue algum sucesso; a partir daí logo a outra passa a depreciar desvalorizando a realização e impedindo que se possa alegrar-se como sucesso. O grande problema encontra-se no fato de que é possível proteger-se de um oponente externo, mas nada pode se fazer quanto ao inimigo interno. A pior prisão é dentro de si mesmo.
O complexo de sintomas que formam o transtorno alimentar classificado pela psiquiatria como bulimia, funciona dessa maneira. Essa desordem do funcionamento mental é caracterizada por períodos de compulsão alimentar seguidos por indução de vômito. Uma parte do eu busca satisfação de intenso prazer, obtido pela grande ingestão de comida e outra parte se opõe a essa satisfação, forçando o vomito numa tentativa de desfazer o estado de satisfação no prazer alcançado. Uma condição interna de destrutividade contra si mesmo, como se uma parte invejasse o sucesso da outra. Sigmund Freud (1856 - 1939) em seu texto ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO, descreve uma ordem de pessoas neuróticas que parecem se sentirem fracassadas justamente quando são bem sucedidas.

“É como se elas não aguentassem a sua felicidade, pois não há como questionar a relação causal entre o sucesso e a doença.” (Freud, 1916). Por conte disso o sujeito envolve-se com futilidades deixando o essencial de lado, até por que a futilidade é mais atraente do que o essencial.
Esse funcionamento parece ter sido gerado a partir de um tipo de vínculo onde a culpa permeava a relação.
O sujeito não consegue ser bem sucedido, pois se culpa pelo seu contentamento enquanto o outro esteja sofrendo. Por um dia ter sido oprimido pelo outro e então dirigido sentimentos de ódio a ele, agora não se sente merecedor de alegrias num mecanismo de autopunição, por se sentir culpado.
A autopunição pode chegar ao seu nível máximo no suicídio e sobre isso Freud escreve em seu texto A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER, que: “é provável que ninguém encontre a energia mental necessária para matar-se, a menos que, em primeiro lugar, agindo assim, esteja ao mesmo tempo matando um objeto com quem se identificou e, em segundo lugar, voltando contra si próprio um desejo de morte antes dirigido contra outrem.” (Freud, 1920).
Através das reflexões conseguidas até aqui, fica claro que a busca pelo estabelecimento de vínculos que sejam ricos em sinceridade e amor é o que pode trazer a possibilidade de reparação do funcionamento que tenha sido perturbado por relações toxicas. Sem a possibilidade de se estabelecer um bom vínculo de confiança as ilusões podem passar a ser percebidas como fatos da realidade.



FREUD, S. 1920, A PSICOGÊNESE DE UM CASO DE HOMOSSEXUALISMO NUMA MULHER. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.
________1916, ALGUNS TIPOS DE CARÁTER ENCONTRADOS NO TRABALHO PSICANALÍTICO. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol.XI. Rio de Janeiro, Imago, 1996.]
MARTINO, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.





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terça-feira, 15 de novembro de 2016

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Modelo de Respeito: Criança e Internet

Em novembro de 2010 publiquei aqui, nesse mesmo blog um texto de reflexão sobre a questão da criança que tem acesso à internet e em especial a criança que não pode contar com a presença afetiva dos pais, que sempre muito garantidos pelas justificativas do apego à uma vida cheia de benefícios materiais colocam em risco o desenvolvimento emocional, de si próprios e consequentemente o desenvolvimento emocional dos filhos, que em grande parte dos casos nasceram sem serem desejados, muito menos planejados e sequer tem um espaço mínimo na vida dos pais. Assim, essas crianças acabam por se transformarem num problema na vida narcisista desses que deveriam cumprir as funções de pais. Retomo o assunto seis anos depois e a situação não me parece nem um pouco animadora, quando verificamos o panorama atual, seja pela observação própria, ou mesmo através das notícias veiculadas recentemente pelos meios de comunicação.

Crianças e adolescentes passando a maior parte de suas vidas na frente das telas de seus computadores e quando não estão em casa ainda assim a hipnose eletrônica continua, mas em seus dispositivos móveis (celulares, smartphones, tablets...). Sempre com um intuito muito claro de buscar desesperadamente um olhar de aprovação do outro. Seja se arriscando em desafios perigosos, onde outros adolescentes assistem, pela webcam, as realizações de brincadeiras arriscadas que muitas vezes acabam em morte, ou ainda a exposição de fotos de nudez e vídeos de conteúdo erótico, que em muitos casos incentiva encontros com desconhecidos, propiciando então oportunidade de abuso físico.
Tudo para sentirem-se importantes pelo menos por alguns momentos, já que nunca conseguiram isso de seus pais, que por sustentarem uma manutenção material acreditam já estar dando "de tudo", para seus filhos. No entanto a falta é de um modelo. Um modelo de afeto, atenção, respeito, sinceridade... Ora, um modelo só pode ser propagado se houver presença, pois na ausência, a própria a ausência é o que serve de modelo.

Uma criança que esteja sendo respeitada pelos pais, presentes em sua vida e atuantes em sua formação, não irá permitir que algo a seduza ou a desrespeite. Ninguém conseguirá maior influência na vida de uma criança do que os pais (ou aqueles que ocupam essa função), quando realmente emocionalmente presentes, no entanto, por outro lado, nada influenciará mais a vida da criança do que a ausência afetiva dos pais.
Grande parte de crianças abusadas ou vítimas de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos, já está sendo desrespeitada em casa há muito tempo. Vulneráveis estão na fase onde tudo o que mais carecem é de modelos. Modelos que possam orientá-las em como devem ser e modelos que possam norteá-las com quem se relacionar, assim como modelos de relacionamentos bem sucedidos.

Bem, quando acontece a ausência da função de pais respeitosos, na vida dos filhos, no que se refere ao cumprimento básico da formação de modelos de respeito para consigo mesmo, passa a existir a tentativa de criação e implementação de regras duras de moralidade, criadas muito menos pelo amor dos pais pelos filhos, mas por um sentimento de culpa por terem se ausentado da vida desse que, na verdade é de sua responsabilidade e que agora apresenta algum desvio em sua conduta.

"As regras que nascem de um ambiente rico em afeto e verdade são regras internas, muito mais próximas da ética do que daquilo que chamamos moral e que na realidade só se sustenta sob os olhos da autoridade. Regras morais se dissolvem rapidamente enquanto a autoridade se distrai." (Martino, 2010)

Medidas autoritárias de intervenções invasivas, de investigação da vida dos adolescentes, que nessa fase deveriam estar desenvolvendo sua intimidade. Isso gera um novo prejuízo que tem impacto na criação de modelos de privacidade. Cria-se assim um funcionamento onde bisbilhotar a vida alheia é algo permitido e comum nos relacionamentos.

"Aquele que aprendeu ser respeitado dentro do lar, certamente não se envolverá em qualquer que seja a relação que não ofereça respeito." (Martino, 2010)

Pais que estiveram emocionalmente ausentes, mesmo que fisicamente presentes, buscam agora uma solução imediata para algo que não consiste num simples problema externo de mau comportamento, mas numa configuração de personalidade empobrecida, que desnutrida de afeto, desesperada, clama por atenção. Vivemos num tempo onde por conta da busca pelo suprimento material, abandona-se a formação emocional, em sua fase mais vulnerável. Entregando-se crianças muito novinhas aos cuidados de instituições, onde passam a maior parte do tempo de sua vida, num período fundamental do desenvolvimento, onde a presença das funções maternas e paternas são imprescindíveis.

No entanto, aquilo que deve ser provido no seio do lar não pode ser substituído por nada que seja oferecido por outra instancia de caridade, organização governamental ou instituição educacional. Mesmo que por mais bem intencionada que sejam, nem uma escola pode substituir o que deve ser suprido no lar.










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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

III ENCONTRO DO ATO DE PENSAR: Sobre o Medo e o Desejo


III ENCONTRO DO ATO DE PENSAR: Sobre o Medo e o Desejo

DIA DO EVENTO: 12 DE NOVEMBRO DE 2016 -SÁBADO ÀS 14H. 
No Centro Cultural Vasco sjrp, à rua São João, 1840 - 
bairro Boa Vista, São José do Rio Preto SP
Faça sua inscrição. 
Vagas limitadas. 
Valor da inscrição: 
R$ 35,00 antecipado.

E-mail para contato: 
Informações pelo telefone: 17 99132-9809 I 17 3011-3866. 

Dados para deposito:
Deposito na Conta poupança da Caixa Federal
Renato Dias Martino
Agencia: 0631
Conta: 013 00018132-6.
(o deposito pode ser feito em qualquer casa lotérica). 
Enviar comprovante de pagamento no e-mail: acuradefreud@gmail.com. 
*** Para sua segurança, não esqueça de levar seu comprovante no dia do evento.

As inscrições podem ser realizadas diretamente pelos blogs:
E também no clicando no link: https://goo.gl/forms/qzSjWfvtVCRS2Afv1

sábado, 20 de agosto de 2016

Cultivo de Bons Vínculos

Gisele Bortoleto Fernandes: Nos dias de hoje, muita gente tem pavor do que é inseguro ou arriscado, mas é impossível requerer segurança eterna. Como se manter num mundo de relacionamentos líquidos, voláteis, sejam amorosos ou profissionais, que estão ótimos e seguros num dia e no outro, não mais? O que precisamos fazer?
Prof. Renato Dias Martino: O medo da insegurança é justamente o que esclarece essa indagação, já que nada é mais certo do que estar sozinho. Enquanto o outro pode me abandonar, o eu sempre estará lá. O narcisista é aquele que não tolera conviver com incertezas e as relações são naturalmente incertas, pois dependem de duas partes distintas, duas almas, dois corpos que desejam coisas diferentes. Portanto, o sujeito narcisista se envolve de maneira superficial pois assim se solta com muita facilidade frente a primeira dificuldade que ocorra. Por mais que exista um mundo que funcione deste modo, ainda assim, quando o que buscamos são vínculos saudáveis e duradouros (mesmo que sejam raros), não nos convenceremos com superficialidades, ainda que pareçam atraentes e prazerosas. 

Gisele Bortoleto Fernandes: Como adquirir a força interna que permita que os relacionamentos (de todo o tipo) durem mais tempo, sem se acabar de uma hora para a outra?
Prof. Renato Dias Martino: Na realidade, não seria uma força, mas uma capacidade de tolerar frustrações. Quando não se é capaz de tolerar frustrações, o sujeito se torna mais suscetível à se envolver em relações superficiais e sem conteúdo.

Gisele Bortoleto Fernandes: Como podemos manter a estabilidade nessa instabilidade e fazer com que as relações não sejam tão voláteis?

Prof. Renato Dias Martino: Alguém que busca estabilidade deve também oferecê-la. De tal modo, é necessário envolver-se apenas com alguém que também busque isso. Alguém que  tenham o mínimo de capacidade emocional amadurecida. E isso não é de forma alguma difícil de se reconhecer naquele que se aproxima. O que realmente acontece é que, muitas vezes o sujeito intolerante acaba por ignorar sinais muito claros da incapacidade do outro, se envolvendo mesmo assim.
Gisele Bortoleto Fernandes: O que faz com que essas relações sejam tão voláteis nos dias de hoje?

Prof. Renato Dias Martino: Dificilmente uma criança tem sido cuidada pelos pais. Quando não são deixadas com poucos meses de idade o dia todo em creches ou escolinhas, estão sendo cuidadas por babás. Isso representa no desenvolvimento dessa criança, uma relação de descompromisso, já que essa criança não é capaz de entender o que pode ter maior importância para sua mãe do que estar perto dele.

O maior prejuízo está na formação de um ciclo mórbido, que se retroalimenta. Vão se formando filhos inseguros de si mesmo, se transformando em adultos muito pouco capazes de amar, que proliferarão esse modelo de incapacidade. Do cuidado dedicado com os bebês depende o destino da humanidade. A paz que um dia partiu do colo tranquilo, daquela que cuidou com zelo, estabeleceu a serenidade interior daquele que hoje estende essa paz ao mundo.



Prof. Renato Dias Martino
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