quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Somos tão educados que perdemos o respeito


Até que ponto educação e respeito coincidem? É a indagação que me levou a esse ensaio em forma de texto. Podemos partir da ideia de que a condição para o respeitar origina-se sempre do pressuposto do ter sido respeitado. Como, se não dessa maneira, encontraremos uma modelo de respeito?

Entretanto, para conviver socialmente, nos vemos obrigado a sermos educados, justamente onde não fomos respeitados. Temos ai um caso clássico de modelo imposto de forma teórica, sem poder contar com a vivência do fato apreendido. Sabe-se “o que”, mas não “como”.


A educação por mais bem elaborada que possa ser e mesmo que seja de forma muito sutil, ainda assim é uma imposição de regras, o que coloca esse conceito no pólo oposto do conceito de respeito. Não me parece muito coerente dizermos que uma imposição possa ter sido de algum modo, respeitosa.


O termo educar se refere ao ato de orientar o sujeito segundo os padrões e ideais de determinada sociedade, visando aprimorar as faculdades intelectuais, físicas e morais. A partir dessa definição fica importante nos lembrarmos de que a inteligência leva ao saber sobre o outro, e muito pouco tem haver com a  maturidade emocional, que diz respeito ao pensar sobre si mesmo. A expansão mental decorrente da maturidade emocional pode levar até a inteligência, contudo a inteligência não garantirá a maturidade emocional. Quando nos propomos a refletir sobre educar, estamos cogitando sobre um conceito muito próximo dos conceitos de domesticar, amestrar, ou adestrar.


A origem da palavra, dentro da perspectiva semântica, de alguma forma, sempre nos mostra o caminho, tornando mais claro alguns pontos obscuros na pesquisa dos conceitos que utilizamos em nosso funcionamento mental e também em nossas ligações afetivas. A palavra educar deriva do latim educare, ligada a educere, que é um verbo composto do prefixo ex, relativo a fora, mais ducere, referente a conduzir, ou levar. Significa literalmente 'conduzir para fora'. Dentro dessa perspectiva a educação desloca o sujeito de si mesmo indicando o desejo do outro. E se estamos de acordo até aqui, já podemos olhar para a proposta de se educar alguém, de maneira atenta.


Esse texto não trata de uma crítica indiscriminada da educação, mas propor que a tarefa de educar deve ser efetuada somente, se precedida pela oportunidade de se ter experiências de reconhecimento interior. Isso para tornar-se capaz de relacionar-se com emoções que habitam o mundo interno. A confusão entre aquilo que é do eu com aquilo que é do outro, está dentro dessa perspectiva. Conhecer o outro antes de conhecer-se a si mesmo é comprometedor no desenvolvimento mental e isso se manifesta na capacidade de amar. Antes da educação deve vir o respeito. A educação está fundada na criação de um falso eu, necessário para defender o verdadeiro eu, mas prejudicial quando muito maciço.


Donald W. Winnicott (1896 - 1971)

“O falso self pode ser convenientemente sintônico com a sociedade, mas a falta do self verdadeiro produz uma instabilidade que quanto mais a sociedade é levada a acreditar que o falso self é o verdadeiro self, mais evidente se torna.” Winnicott (1950-5, p.g. 365)


O conceito de respeito, por sua vez, trata de relacionar com alguém ou alguma coisa, tendo grande atenção e cuidado, é tratar com profunda deferência. O respeito é um modelo de vínculo que admite a habilidade de reverência e inclui a capacidade de se relacionar com grande consideração. O respeito é antes de tudo algo muito próximo do afeto. Respeitar é uma forma muito nobre do amor.

O modelo de vinculação respeitosa, diferente de um reles “comportamento educado”, deve partir do sentimento real de importância para com aquilo ou aquele que se liga. Diverso da educação, o respeito não se deve jamais ser exigido. A capacidade do respeito é sinal claro da real expansão do pensamento e maturidade mental.


Do latim respectus, particípio passado de respicere, “olhar outra vez”. Do re, “de novo”, mais specere, “olhar”, a ideia é de que algo que merece um segundo olhar em geral merece respeito. Então a proposta é pensar melhor os conceitos de respeito e de educação.


Somos educados “para” o outro, independente do outro, o respeito se tem “com” o outro e depende totalmente do vínculo, só se pode respeitar aquele que se dá o respeito, de outra forma é pura educação.

Carl Gustav Jung (1875 —1961)


“O excesso de animalidade deforma o homem cultural; o excesso de cultura cria animais doentes.” Jung (1980, p.g. 20)

 
Enquanto a educação cuida das questões referentes a limites morais e visa um enriquecimento intelectual o respeito se coloca a favor do desenvolvimento ético e da construção de certa sabedoria afetiva. Somos muito bem "educados" e com isso acabamos perdendo nossa intuição que é a base do respeito.

Jung. C G; Psicologia do inconsciente, tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis, Vozes, 1980.


Winnicott. D.W; Textos selecionados: da pediatria à psicanálise, tradução de Jane Russo. Rio de Janeiro, F. Alves, 1978.



Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O brincar enquanto função mental

De forma comum normalmente se tem a ideia de que a brincadeira não passa de uma atividade que as crianças arrumam para preencher seu tempo, já que nada podem fazer de tão importante para o bem comum. Olhando por esse ponto de vista, as brincadeiras então, podem facilmente serem excluídas pelos adultos da vida da criança, como dispensáveis, quando existem outros interesses implicados na ocasião.


Entretanto, do ponto de vista psicológico, as brincadeiras são importantes ensaios de situações que a criança viverá no futuro e isso não está presente apenas nos humanos, mas, nos outros animais também é prática instintiva ensaiar, sem compromisso com o sucesso, os passos que deverá dar em direção à vida.
Brincadeiras infantis estão repletas de experiências fundamentais no desenvolvimento da mente e definem de forma muito importante traços da capacidade emocional.
Sentimentos de amor e ódio que permearão toda a vida da criança estão a sua disposição nas brincadeiras para serem conhecidos e experimentamos, sem que influenciem sua vida, de forma comprometedora. Durante suas experiências nas brincadeiras, poderá matar ou amar loucamente tudo e todos que desejar, em sua imaginação. Situações de paixões arrebatadoras e sentimentos de intensa rivalidade, ainda proibidos para a criança, descobrem nas brincadeiras um laboratório de importância essencial.


A mulher que pôde brincar de ser mãe quando era menina e que desejou isso, cria um espaço interno que comportará essa função de forma muito bonita na vida adulta.

Da mesma forma, o garotinho que pôde lutar com o rival e aniquilar seu inimigo, em suas brincadeiras, têm maior chance de resolver problemas dessa ordem e não repetir esse tipo de comportamento de forma comprometedora em sua vida adulta.


Melanie Klein (1882-1960)
Melanie Klein (1882-1960), pensadora austríaca, nome mais importante depois de Sigmund Freud (1856-1939) para a psicanálise, publica em 1932 sua obra "A psicanálise da criança", onde propõe a ludoterapia como recurso principal no tratamento psicológico de crianças. A palavra lúdico, de onde vem ludoterapia, significa brincadeira e tem sua origem no latim “illusio”, propondo a ilusão como o ensaio do que será real. A pensadora propõe a brincadeira como libertadora de sentimentos reprimidos na vida emocional da criança, permitindo uma adequação no seu funcionamento mental.


Nada mais banal do que os interesses que os adultos defendem; nada mais importante do que os temas das brincadeiras infantis.


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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O nome do que sinto

Repensar os conceitos que servem para atribuir nome às experiências vividas, é um exercício fundamental para o funcionamento mental, portanto, é então tarefa essencial do processo psicanalítico. O grande papel do psicoterapeuta é justamente, o de auxiliar na tarefa nomeadora de sentimentos.


Enquanto seres humanos, ainda somos muito limitados nessa habilidade de reconhecer e nomear sentimentos. Isso fica facilmente constatável se percebermos que carregamos por muitos anos (muitas vezes pela vida toda) sentimentos que nunca soubemos muito bem como nomear. Simplesmente sentimos e quando isso passa a ser um desconforto, tentamos parar de sentir. Arrumamos uma forma de nos livrar desse sentimento desconfortável sem se sequer darmos um nome a isso que sentimos. 


Wilfred Bion (1897 –1979)


Wilfred Bion (1897 –1979), utilizando-se da ideia de Immanuel Kant (1724 – 1804) quando propõe que a “intuição sem conceito é cega; conceito sem intuição é vazio”. Bion 1992(pg. 96).



Ora, é importante mencionar o fato de que aquele que tem um sentimento, sente isso em relação a alguém. Quero propor que cada sentimento que habita nosso aparelho emocional, só pode existir se estiver relacionado a alguém, mesmo que seja com o si mesmo. Assim, a tarefa se torna mais complexa ainda, pois para nomearmos um sentimento, necessariamente temos que atribuí-lo a alguém e mesmo os sentimentos que atribuímos a nós mesmos, tem sempre o outro como referencia.


Bem, não é surpresa o fato de que o ser humano guardar grande dificuldade na experiência do encontro e ligação com o outro. Na história da evolução dos vínculos afetivos, o ser humano, definitivamente, ainda se encontra engatinhando e a capacidade de amar ainda é algo muito primitivo no funcionamento mental do humano atual. Com isso, em nossa pesquisa quanto às capacidades emocionais, entramos num terreno extremamente penoso, pois só pode “ser” aquele que é capaz de amar. Questão fundamental dentro da proposta de construção de um ambiente saudável a nossa volta.


Então, a experiência de conhecer e nomear sentimentos, não está limitada na tarefa de pensar só em si, mas está fundamentada na capacidade de pensar-se em relação ao outro. Para que haja o desempenho do pensar de maneira saudável, é necessário desenvolver um bom grau de consciência.


Essa questão fica muito clara e isso acontece de maneira muito bonita, quando conhecemos a origem da palavra consciência, que aqui usamos para denominar a capacidade de compartilhar (com o outro) carinhosamente das verdades da vida. Tratamos então da “con-sciência”, ou seja, a ciência que podemos compartilhar com o outro.


Alguém só se torna humano no contato afetivo com outro humano, de outra forma, não passa de um alguém. O desempenho dessa humanidade se inaugura na forma tolerante de aprender com o amor do outro, como é tornar-se a si mesmo.

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Depressão, o mal do século - entrevista para Jornal Laboratório - 2° ano de Jornalismo UNILAGO

sábado, 10 de dezembro de 2011

ALIANÇAS E ALIENAÇÕES

Esse texto é um capitulo do livro “O amor e a Expansão do Pensar - Das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva” publicado em 2013. Ocasião que tento tratar do amor, que durante séculos foi um tema reservado somente aos romancistas, poetas e filósofos, a partir de Sigmund Freud (1856-1939) passou a ser um objeto de estudo das teorias do pensar. Tento, nessa oportunidade, levantar a hipótese de que também na ciência, presentemente admite-se que a capacidade de amar - que se desenvolve, sobretudo, nas mais tenras fases da infância - é fundamental no bom desempenho do aparelho psíquico. 


Aquilo que é responsável por promover a ligação e, além disso, guarda também a função de sustentar duas pessoas ligadas, pode revelar em sua natureza, variações merecedoras de um olhar mais cuidadoso.


A proposta deste ensaio é guiada por essa perspectiva. Um bom motivo para se pensar com mais cuidado essa questão é o fato de que, muitas vezes nos achamos intimamente ligados a alguém, e mesmo assim, somos muito pouco capazes de reconhecer como estamos unidos a essa pessoa, ou ainda, sequer questionamos que função reserva essa mesma ligação, em nossa vida. Se assim acontece, também somo impossibilitados de perceber e atribuir à mesma, as consequências que essa união pode gerar. Desafortunado daquele que se vê ligado profundamente a alguém que muito pouco conhece e mais ainda, sem perceber a dimensão e a qualidade desse vínculo tão importante em sua vida.


Porém, embora tenha sido empregado nesse texto o uso da referencia “alguém”, a proposta desse ensaio não se restringe apenas ao âmbito dos vínculos entre pessoas, mas, de forma mais ampla, refere-se também a ligação que se pode estabelecer nos grupos, no âmbito profissional, na ligação que se pode ter com alguma “coisa”, na forma como ligar-se a um bem adquirido, ou mesmo na relação que se pode ter com o dinheiro, por exemplo. Ainda, é importante colocar que o conceito que aqui chamamos de aliança, não está resguardado simplesmente no domínio micro, onde o eu se vincula de forma individual com outra parte, mas pode se estabelecer em diversos âmbitos, dentro dos modelos macro-sociais, como é o caso da aliança militar, comercial, política, dentre outras esferas prováveis, onde a aliança pode se estabelecer.


A questão que esse ensaio busca tratar é inerente ao tipo de ligação que pode ser construída e então cultivada entre o eu e aquilo que se encontra para além do eu. Logo de antemão já se pode afirmar, e a psicanálise nos ensinou isso de forma essencial, que a qualidade de qualquer que seja o vínculo estabelecido com o outro (além do eu), dependerá da forma como se é capaz de relacionar-se com o si mesmo.


A aliança aqui mencionada encontra-se na dimensão do acordo entre duas ou mais partes. Essa união tratada aqui tem o objetivo concentrado fundamentalmente na realização de fins que coincidem num bem comum. Falamos então, da experiência de aliar-se em nome do desenvolvimento das partes.


Alianças são formadas através de um processo que vai se construindo e devem sagrar certo caminho a percorrer. De inicio a aliança acontece pela identificação das partes. Existe algo no outro que parece coincidir com algo que falta no sujeito. Isso acontece sempre de forma inconsciente, pois dificilmente enxergamos com nitidez aquilo que nos falta. Não é novidade alguma o fato de que nos aproximamos das pessoas e coisas, muito mais pelo que imaginamos que elas sejam, do que por motivos conscientes. Até esse ponto do processo, ainda não foi definida a qualidade desse vínculo. Justamente por essa razão, o processo que conduz a construção da verdadeira aliança, deve contar com um período prévio e essencial dedicado a algum reconhecimento básico das partes. Fase fundamental na construção de qualquer que seja o vínculo e bem por conta disso, fica importante salientar que, falhas nessa fase podem ser fatais. Nessa fase do desenvolvimento da aliança, existe grande fragilidade naquilo que une as partes que se encontram nesse momento severamente vulnerável.

 

A construção e desenvolvimento da verdadeira aliança deve ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação. A origem da verdadeira aliança é sempre delicada. Carece sempre de grande dedicação, necessita do olhar cuidadoso. Surge pequena e frágil, desenvolve-se devagar e sempre sem pressa.


Por outro lado, muito provavelmente impulsionados pela urgência, por sua vez gerada a partir da fragilidade emocional, nos percebemos em uma aliança perversa que aqui chamaremos de alienação. Adoecido na auto estima, o sujeito se vê incapaz de questionar, duvidar, ou escolher. Dessa maneira, fragilizado, a tendência é estabelecer então, um modelo de vínculo onde o intuito individual só coincide com o do outro naquilo que diz respeito a livrar-se de desconfortos, ou mesmo angariar garantias em nome do comodismo mórbido.


O que move a alienação está muito longe do objetivo (individual e partilhado) de expansão e desenvolvimento das partes, características próprias da verdadeira aliança. Uma pessoa alienada encontra-se implicada numa falsa aliança de caracteristica perversa, onde se vê impedida de ser ela mesma.


É possível dividir dois grandes grupos de alienações: dentro de um modelo parasitário-dependente, incorporar-se ao outro, como uma parte dele. Incapaz de confiar em si mesmo adere simbioticamente no outro. O objetivo dentro desse formato de aliança perversa é o de se tornar parte daquele do qual está vinculado. No modelo oposto de falsa aliança, a ligação toma forma dominio-controladora, tendendo incorporar o outro como parte de si. Incapaz de desenvolver certas funções, o sujeito utiliza-se do outro para isso. Assim como no primeiro modelo, nesse também o sujeito perde o direito de ser ele mesmo, pois, uma parte de si encontra-se sendo desempenhada por outrem.
Guiado pela alienação, o sujeito torna-se cada dia mais carente de si mesmo, se colocando na posição de sua própria negação, onde o eu deve ser suprimido para que o outro exista. A manutenção da aliança perversa, ou alienação, gera certo funcionamento mental que tende a diminuição da capacidade de pensar por si próprio. Isso intensifica a própria alienação, nutrindo o vínculo de desesperança em favor do estado de dependência. Todo e qualquer movimento expansivo que insinue a capacidade de sobreviver fora do estado de dependência é então prontamente atacado e desvalorizado, assim que identificado.


O fruto de ligações como essas, é vulnerável ou ainda deficiente, por carregar o estigma da sua amarga origem. Aquilo que nasceu de uma relação perversa, ausente de cuidados especiais, tenderá repetir o modelo de sua raiz na a próxima geração.


A fragilidade do eu é inevitável na alienação que força o sujeito se tornar algo que na realidade não é, mas é compelido a ser, com a intenção de manter a ligação perversa e assim também se beneficiar dela. Logo, nesse modelo de relação nunca se está sendo o que é na realidade. Esse modelo de ligação acarreta assim, o prejuízo fundamental da impossibilidade do desenvolvimento do pensar. Isso por que só é capaz de pensar aquele que poder ser ele mesmo. Mas para isso é imprescindível o cultivo da aliança verdadeira. É através dela que o sujeito pode reconhecer-se a si mesmo e desempenhar sua capacidade de refletir.


A verdadeira aliança deve partir da capacidade de se conhecer as partes. A partir de então se estabelece certo fio sustentador do vínculo. Esse é um vínculo que requer manutenção cuidadosa do fiar constante. É dai que deve partir a fiança garantidora da aliança. A aliança que por ser verdadeira, deve ser baseada na confiança. A con-fiança que significa fiança compartilhada, mantida pelas partes, nutrida pela fé e assim geradora da fidelidade. O fio que permite, depois do conhecer, ausentar-se para que assim no regresso seja possível o reconhecer.

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domingo, 27 de novembro de 2011

Paradoxo do tempo livre – Entrevista de Prof. Renato Dias Martino para o jornal Diário da Região.

Paradoxo do tempo livre – Entrevista de Prof. Renato Dias Martino para o jornal Diário da Região.




Elen Valereto - As pessoas reclamam que nunca têm tempo para nada, mas quando conseguem, não sabem aproveitar as horas vagas. Por que isso acontece? Falta desafios ou compromissos?


Prof. Renato Dias Martino - Se partirmos da ideia de que o desejo está naquilo que não podemos ter e quando temos já não desejamos mais como antes, então já podemos solucionar boa parte dessa questão. O fato é que quando se imagina um tempo livre na vida, na maioria das vezes, se preenche esse tempo (na imaginação) com várias coisas que se pretende fazer, contudo, muito pouco se avalia as reais possibilidades disso. Assim, quando se consegue arrumar um tempo livre na realidade, se percebe que talvez não seja capaz de tornar proveitoso esse tempo.


Elen Valereto - Quais são os sentimentos que acometem uma pessoa que está com horas ociosas e não sabe como utilizá-las?


Prof. Renato Dias Martino - Talvez essa pessoa possa estar utilizando de alguma forma esse tempo, sem saber que esta o fazendo. A necessidade de reservar um tempo para retirar a mente dos compromissos e das realizações é tão importante quanto efetivamente realizar. Entretanto, se a proposta é realmente realizar algo, penso que existe a necessidade anterior de se estabelecer projetos. Sem se estabelecer projetos dificilmente se realizará qualquer que seja a idéia. Quando se estabelece um projeto, torna-se possível avaliar as reais possibilidades de efetivação do mesmo.


Elen Valereto - Muitas pessoas dizem que as horas de relaxamento são ideais para estimular a criação. Mesmo assim, permanecem inertes ou perdem tempo com televisão ou internet, e se sentem culpadas no final do dia (ou fim de semana) por terem desperdiçado o tempo de sobra. O que essas pessoas podem fazer para fugir dessa situação?


Prof. Renato Dias Martino - O momento da criação é sempre um processo imaginativo e sem compromisso direto com a realidade. Se estiver vinculado de forma direta com a necessidade de materialização, não pode ser chamado de criação. As maiores criações são geradas de um momento descontraído de ócio, onde não exista a necessidade de se concretizar nada. Essa idéia é difícil de se conceber num mundo onde o que se exige é justamente o contrario da criatividade. O que o mundo contemporâneo exige é justamente a produção padronizada que nada tem haver com criação.

Elen Valereto - Quais são os sinais de que estamos desperdiçando parte de nossa vida?


Prof. Renato Dias Martino - A ideia de se desperdiçar tempo é falsa. Isso nunca acontece. Usamos nosso tempo dentro de nossas capacidades. Se não estamos “produzindo” como o mundo nos cobra é por que ainda não somos capazes disso. Contudo, se o que se pretende é a realização, que é dependente da criatividade, então teremos que ser tolerantes quanto nosso tempo ocioso até que a criatividade chegue.

Elen Valereto - Quais são as dicas para descobrir a valorizar e usar as horas livres em nossas vidas?


Prof. Renato Dias Martino - A dica é respeitar o próprio tempo e a própria capacidade. Não podemos nos forçar a fazer aquilo que não somos capazes, pois certamente faremos mal feito ou continuaremos nos cobrando de algo que na realidade não existe.

Matéria na integra: http://www.diariodaregiaodigital.com.br/Flip/Flip_Books/Bem_Estar-20111127/index.html#/6/

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Conferência Municipal da Criança e do Adolescente de Mirassol


Renato Dias Martino,
é o convidado da Conferência para dar palestra aos jovens
Conferência da Criança e do Adolescente acontece nessa sexta-feira
Um evento sério, mas muito divertido e interativo. Assim será a Conferência Municipal da Criança e do Adolescente de Mirassol, que acontece nesta sexta-feira (25.11), no Auditório da Uniesp, das 8 às 13 horas.

A intenção é tornar um ambiente agradável, preparado especialmente para o público jovem. Pensando em todos esses cuidados, o palestrante foi escolhido por um grupo de jovens e a abertura do encontro será feita pelos mirassolenses Drico e Zema, queridos entre os jovens e incentivados pelo Departamento de Cultura.

O palestrante, psicoterapeuta, professor e escritor, Renato Dias Martino, falará sobre a importância do cuidado na infância e na adolescência para o desenvolvimento de um adulto saudável e ético: “O encontro será a oportunidade de criação de certo ambiente, o mais livre possível das palavras de crítica, em prol da reflexão sobre temas fundamentais para um funcionamento emocional saudável dos futuros adultos”, afirma o convidado.
O encontro está sendo promovido pelo COMCRIAM e pela Prefeitura, por meio do Departamento de Ação Social e Assessoria da Criança e do Adolescente. “A Conferência será uma oportunidade de a Prefeitura prestar conta do que foi feito e discutir com a sociedade civil prioridades de investimento na área da infância e juventude”, afirmou o Assessor Jurídico da Criança e do Adolescente, Goy Montini.

 
“O auditório da Uniesp será decorado com os desenhos e os anseios das nossas crianças. Grupos serão formados e as ideias expostas levadas para a Conferência Estadual e Federal. O que o jovem de Mirassol pensa será utilizado lá na frente para a elaboração de políticas públicas para a Criança e o Adolescente”, disse a Diretora de Ação Social, Maria José Imbernom.

Texto e foto : Natália Campanholo
http://www.mirassol.sp.gov.br/Imprensa/Noticia.aspx?nid=1825

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domingo, 6 de novembro de 2011

Conflito: medo e desejo


Sigmund Freud (1856-1939) teve sua formação medica em neurologia, e desenvolveu a psicanálise a partir da percepção de que grande parte dos pacientes que ele atendia, não guardava a origem de suas doenças no corpo, ainda que se manifestassem ali. Exames clínicos não apresentavam diagnósticos fisiológicos e o organismo, em suas funções mantinha-se funcionando adequadamente, ainda assim, existia certa dor presente na queixa do paciente.
Sigmund Freud 
(1856-1939)
Entre 1892 e 1899, Freud desenvolveu uma serie de ensaios que juntos formam as Primeiras Contribuições à Teoria das Neuroses e nessa obra designou a ordem patológica que percebia em seus pacientes, o nome de neurose e nesse caso, mais especificamente, histeria de conversão. Algo que existia na dimensão do psíquico, mas se manifestava no corpo.


Ainda hoje essa visão de Freud nos serve como um excelente instrumento para pensar. É indiscutível o fato de que a dor quando aparece no corpo, por ser fisicamente perceptível, convence com maior facilidade, a nós mesmos e também ao outro. Por outro lado, quanto à dor é psíquica, está na ordem do não sensorial, assim, não pode contar com os órgãos dos sentidos para confirmá-la e fica dessa forma, desacreditada.

Dificilmente o funcionário de uma empresa conseguiria convencer seu chefe com a justificativa de que não foi trabalhar por estar angustiado. Mas, quando a manifestação passa a ser somática, ou seja, quando o corpo dá sinais claros de que se está doente, aí sim o outro se convence disso. Entretanto, o serviço prestados por um funcionário angustiado é imensamente mais danoso do que sua ausência temporária.

Ausência essa, necessária para que se possa reconhecer o conflito que ocorre em seu mundo interno. Uma guerra que se trava de forma interna, mas que ameaça transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico. Naturalmente, certo conflito entre um medo e um desejo. Uma ordem de conflitos que pode promover severas perturbações no funcionamento mental. Isso pelo fato de que o medo é filho do desejo.


Freud em seu “Esboço de psicanálise”, publicado em 1940:


Sigmund Freud 
(1856-1939)

“Os sintomas das neuroses, poder-se-ia dizer, são, sem exceção, ou uma satisfação substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal satisfação, e via de regra, são conciliações entre as duas, do tipo que ocorre em consonância com as leis que operam entre contrários, no inconsciente.” Pg. 199




Sem poder tornar-se consciente desse conflito, o sujeito vive certa batalha inconsciente que acaba por revelar-se nos vínculos. Onde adota certa prática especial nas relações. Passa a odiar como forma de distanciamento daquilo que na realidade tanto deseja. Apresenta assim um quadro obsessivo, de forma que se envolve cada vez mais com algo que na realidade evita compulsivamente.
Ou, por outro lado, movido pela culpa, torna-se subserviente á aquele do qual odeia tanto. Essa culpa quando em sua ultima consequência, pode sofrer certa conversão no nível orgânico e somatizada passa a representar-se numa patologia no corpo, ou seja, uma doença física. Isso porque o sujeito pode encontrar nessa doença física uma maneira de se auto punir. Agora fisicamente doente pode convencer o outro, assim como convencer-se a si mesmo do seu sofrimento.
Abre-se então a eterna e inexorável batalha entre o amor e o ódio: enquanto um ocupa o topo da consciência, o outro se mantém velado, numa forma latente, mas ainda assim, extremamente ativa e definindo “escolhas” na vida do sujeito. Mobilizado na impossibilidade pela proibição de integrar amor e ódio, o conflito provoca sintomas de inúmeras formas. Um processo gerado por uma vivência especial, onde àquilo que foi proibido de desejar (odiar) se torna justamente o que faz nutrir o maior desejo (ódio) inconsciente. Desejo que por ser inconsciente, amiúde é impulsionado para a ação de efetivação. Entretanto a concretização esbarra na proibição desse mesmo desejo, justamente onde é gerado o medo.


Mas, apesar do volume do impulso que impele à ação de consumação do desejo, aquilo que pode realmente apaziguar o conflito se encontra na dimensão do reconhecimento desse desejo e não da prática da ação. O reconhecimento do sentimento é o que induz o pensar e não é novidade o fato de que isso coincide justamente com a capacidade de adiar a ação. Mas ainda assim, o reconhecer é assustador. Isso por se tratar de um movimento interno que leva a abrir mão da satisfação do prazer que se encontra na efetivação da ação. A psicanálise nos ensinou com muita clareza que pensar é desistir da satisfação imediata, que apesar de ser prazerosa, é exatamente a responsável pelo conflito.

A proposta de considerar a dimensão do lado desconhecido da mente deve partir de certa experiência de humildade, na consideração da própria ignorância presente nas dores da alma.




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Prof. Renato Dias Martino
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