quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SOBRE A FUNÇÃO DO PAI

Não acredito que exista uma receita que ensine como ser um bom pai, entretanto, não existe dúvida que é preponderante no desempenho da função paterna grande capacidade de tolerância. Se estivermos falando de experiências emocionais, a definição de limites, sempre enriquecida de carinho é a principal característica dessa função e é exatamente por isso que sua presença se faz tão importante. É através das vivencias com o pai que o sujeito tem chance de desenvolver seus próprios limites sem agredir a si mesmo.
O estabelecimento de limites é característica central da presença emocional paterna. É do pai a função de dizer “não”, por exemplo, quando a mãe faz isso é sempre em nome do pai: “Espera só seu pai chegar!”, entretanto essa definição deve contar com uma boa dose de afeto. A ausência do afeto nessa experiência resulta na criação de um funcionamento cruel com ele mesmo. Formam-se limites preestabelecidos para si próprio, através de mecanismos rígidos de imposição de regras. Isso é gerador de uma série de conflitos psicológicos, podendo até, em alguns casos, se manifestar fisicamente. Em casos extremos o sujeito pode romper com esse modelo e de forma inversa se entregar a formas subversivas, desregradas e sem limites, como o resultado de uma revolta às leis impostas sem afeto.
Ora, não deve ser motivo de surpresa afirmar que o perfil da figura paterna e também da presença materna, sofreram algumas alterações nas últimas décadas. No estudo da psicanálise aprendemos que o ser humano tem duas formas de funcionar mentalmente; uma delas com características egoístas ou narcisistas, que usa normalmente para se defender; e outra forma que, quando mais confiante de si, se dispõe a ligar-se e dedicar-se ao outro. Essas duas formas de funcionar disputam lugar na personalidade do sujeito, contudo, encontram convites sedutores na constituição de uma sociedade consumista. Esses convites têm forçado o sujeito a funcionar muito mais de forma narcisista e isso compromete diretamente as funções básicas, como é o caso da materna e também a paterna. 
A vivencia no desempenho da psicanálise clínica, assim como o exercício da docência no ambiente de ensino, revela que na verdade a realidade que vivemos hoje existe muito pouco espaço para essas funções básicas, pois, são raros os lares que podem contar com a presença da mãe, as crianças são criadas pelas avós ou por babás. A presença paterna, então, é mais rara ainda.
Uma criança é gerada no encontro entre duas pessoas, e só através desse encontro de realidades é que será garantida certa saúde emocional. A privação da experiência dessa incidência de realidades, porém, resulta na formação de sérios conflitos que, sem duvida comprometerão essa criança na forma de se relacionar com ela própria e assim, também com o outro.
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Prof. Renato Dias Martino
Psicoterapeuta e Escritor
Fone: 17-30113866 
renatodiasmartino@hotmail.com
http://pensar-seasi-mesmo.blogspot.com

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