segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Prof. Renato Dias Martino fala sobre acolhimento para o Jornal da Vida – Rede Vida




Prof. Renato Dias Martino fala sobre acolhimento para o Jornal da Vida – Rede Vida
Entrevista de Karol Granchi (Jornalista)
Prof. Renato Dias Martino é psicoterapeuta, atuante na clínica da psicanálise na cidade de São José do Rio Preto, estado de São Paulo.
É escritor das obras "Para Além da Clínica" (2011), 
“Primeiros Passos Rumo à Psicanálise” (2012), 
“O amor e a Expansão do Pensar: 
Das perspectivas dos vínculos no desenvolvimento da capacidade reflexiva” (2013) 
e “O LIVRO DO DESAPEGO” (2017).
Entre em contato pelo e-mail prof.renatodiasmartino@gmail.com, 
ou pelo fone 17 – 30113866

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DA INVEJA

A dificuldade que o ser humano enfrenta ao lidar com a verdade tem na inveja um grande representativo. Enquanto invejoso, o sujeito fica impedido de estar de acordo com a verdade, obstruindo a experiência necessária da busca constante por ela. O sujeito quando mente nega a verdade, ao passo que a inveja o força a vê-la com maus olhos.
“Cada novo movimento de reconhecimento da “verdade”, vem acompanhado por sensações que são agentes de sentimentos de tristeza, susto, vergonha e inveja.”. (Martino, em Para Além da Clínica, 2011). O grande problema na procura por estarmos de acordo com a verdade é que quando se reconhece uma verdade, isso ocorre sempre em detrimento de uma ilusão.

A manifestação da inveja é o fator gerador do primeiro homicídio registrado na humanidade, segundo o livro do Gênesis na Bíblia. “Caim mata Abel e o faz invejoso do seu próprio irmão.”. (Martino, 2011). Esse fato revela o quão primitivo é esse sentimento em nossa história. Primitivo, não só na história de nossa raça (filogênese), mas também, na história de vida de cada um de nós (ontogênese).

1Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e
deu à luz Caim, e disse: “Possuí um homem com
a ajuda do Senhor.” 2 E deu em seguida à luz Abel,
irmão de Caim. Abel tornou-se pastor e Caim lavrador.
3Passado algum tempo, ofereceu Caim frutos
da terra em oblação ao Senhor. 4Abel, de seu lado,
ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das
gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para
Abel e para sua oblação, 5mas não olhou para Caim,
nem para os seus dons. Caim ficou extremamente
irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido.
6O Senhor disse-lhe: “Por que estás irado? E
por que está abatido o teu semblante? 7Se praticares
o bem, sem dúvida alguma poderás reabilitar-te.
Mas se precederes mal, o pecado estará à tua porta,
espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo”. 8Caim
disse então a Abel, seu irmão: “Vamos ao campo.”
Logo que chegaram ao campo, Caim atirou-se
sobre seu irmão e matou-o. (Gn 4,1-9).

Sigmund Freud (1856 – 1939) havia alertado para a presença da inveja inerente à fase fálica do desenvolvimento psíquico em seus TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE de 1905, “onde, segundo ele, a criança vive a fantasia de que todo ser humano possui pênis.”. (Martino, 2011). O problema do reconhecimento do órgão genital feminino por conta de sua disposição anatômica interna propicia à menina viver certa inveja do pênis. Freud retoma o assunto em suas NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE, quando afirma que as meninas:

 “Sentem-se injustiçadas, muitas vezes declaram que querem ‘ter uma coisa assim, também’, e se tornam vítimas da ‘inveja do pênis’; esta deixará marcas indeléveis em seu desenvolvimento e na formação de seu caráter, não sendo superada, sequer nos casos mais favoráveis, sem um extremo dispêndio de energia psíquica.” (Freud, 1932).

No entanto, mais tarde Melanie Klein (1882-1960), expande esse tema com muita propriedade em sua obra INVEJA E GRATIDÃO, publicada em 1957. Klein propõe que a inveja é vivida originalmente na primeira fase do desenvolvimento emocional, onde a realidade do bebê limita-se na experiência primitiva entre ele e a mãe. “Segundo Klein o bebê inveja a mãe por ela ser capaz de proporcionar a ele algo que ele não seria capaz de fazer sozinho.” (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015). São satisfações de necessidades imperiosas para viver, da qual ele não consegue prover por si mesmo. Assim, a inveja revela-se elemento natural do desenvolvimento psíquico e que mediante à um cuidado dedicado da mãe, deve evoluir para modelos mais amadurecidos de funcionamento mental.

Por fazer parte do processo natural do desenvolvimento e como é próprio dos sentimentos, também com a inveja não existe escolha quanto a sentir ou não, tão somente se sente. De tal modo, a partir de então, conforme as experiências bem ou mal sucedidas, pode se tomar consciência disso, ou não. Os possíveis desfechos que se possa ter a partir da experiência de se sentir inveja, estão ligados ao grau de desenvolvimento da maturidade emocional, que por sua vez depende diretamente da capacidade de tolerar frustrações, na tomada de consciência.
Quanto maior for a capacidade de tolerar o desconforto gerado pela falta, tanto maior a disposição para a tomada de consciência da realidade.
Klein faz uma distinção entre inveja, ciúmes e voracidade e descrever a inveja como sendo “um sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável- sendo o impulso invejoso o de tirar este algo ou de estragá-lo." (Klein,1957). Ainda assim, gostaria de expandir esse pensamento, separando a inveja (quando ainda não consciente) em duas etapas, onde o segundo estágio pode seguir, por sua vez, duas outras vertentes. A inveja parece ser marcada pela admiração que se possa ter por alguém, em seus atributos, sem que se acredite ser possível desenvolver em si próprio essas qualidades admiradas.
Essa experiência de admiração sem capacidade me parece caracterizar-se como uma primeira fase. Daí por diante alguns prováveis desenlaces podem ocorrer, numa segunda fase da experiência.

Seguindo a semântica da palavra, do latim, invídia, do "ver" (videre), desenvolve-se a depreciação do objeto admirado, no olhar torto, ou ainda, num mau-olhado. Na tentativa defensiva de se livrar do sentimento desconfortável de desejar (necessitar) muito algo, do qual não se acredite ser capaz de conseguir por si mesmo, o sujeito, então tomado pelo ódio, menospreza o valor disso. Com isso se apazigua a sensação desconfortável.
Depreciar o objeto desejado atenua a inveja do incapaz. A crítica, muitas vezes com a pretensão de ser construtiva é um bom exemplo disso. Por outro lado, como que numa paixão cega, pode haver a tentativa voraz de sugar tudo que o objeto admirado tenha de bom. No intuito de esvair, esgotando o objeto de tudo que seja desejável, mas que pareça inalcançável por si só. “Ao internalizar o seio tão vorazmente que na mente do bebê o seio se torna inteiramente posse sua e por ele controlado, o bebê sente que tudo de bom que ele atribui ao seio será dele próprio. Isso é usado para contrabalançar a inveja.” (Klein, 1957). A bajulação é um exemplo disso, no que popularmente chamamos de puxa-saco.
Assim como na crítica, por de trás da bajulação esconde-se a inveja. Quando a inveja acomete o sujeito que não é capaz de percebê-la e com isso responsabilizar-se por esse sentimento, deve ocorrer a repressão, resultando ou na depreciação ou na voracidade. Fica claro que essas duas situações são permeadas pela incapacidade de tolerar a frustração gerada pela ausência do que se necessita ou deseja.

Na possibilidade da tomada de consciência, abre-se um terceiro caminho no desenlace da experiência da inveja. Ao se tomar consciência do sentimento, existe a oportunidade de expansão da inveja em modelos mais nobres de elaboração mental. No entanto, a qualidade do vínculo que se possa estabelecer com o sujeito invejado é fundamental para que seja possível esse desenlace da experiência. Quando se admira alguma característica em alguém, pode se estabelecer um vínculo onde, a partir do desenvolvimento do amor e da sinceridade, o sujeito pode passar a desenvolver essa capacidade, ora invejada, ou ainda pode se estabelecer certa parceria, onde um deve auxiliar o outro naquilo que ele não seja capaz de fazer sozinho. Assim, se desenvolve a gratidão, que deve estar sempre permeada pela generosidade. A inveja está para a capacidade de gratidão como pólo oposto, enquanto indicativo na escala evolutiva da maturidade emocional.

“A culpa, quando pode contar com acolhimento, tem maior chance de converter-se em responsabilização, assim como a inveja, ao contar com o acolhimento, é convidada, na ocasião do reconhecimento, a converter-se em gratidão.”.  (Martino, em O LIVRO DO DESAPEGO, 2015).
Mas, a inveja está longe de ser uma característica individual, sendo então um atributo do vínculo, que só irá manter-se na relação em que as partes compartilhem desse sentimento. Mesmo que seja no vínculo consigo mesmo, numa inveja de si mesmo.

Quando a continência necessária que o bebê precisa não é cumprida pelo ambiente acolhedor (mãe), a tendência à desintegração se torna predominante e isso pode gerar severa fragmentação da personalidade. Uma parte do eu pode se voltar contra a outra impedindo as oportunidades de realização. Na ocasião de uma parte ter sucesso, logo a outra passa a depreciar, desvalorizando e neutralizando a alegria pelo provável sucesso. Num movimento de destrutividade contra si mesmo, onde uma parte inveja o sucesso da outra. De qualquer forma, por se tratar de um atributo vincular, o invejoso e o invejado devem compartilhar da inveja, caso contrário esse quadro deve se dissolver. Wilfred R. Bion (1897 - 1979) alerta sobre isso quando propõe que: “Inveja gera inveja, e essa emoção autoperpetuante finalmente destrói, tanto o hospedeiro como o parasita. Não se pode atribuir inveja a uma parte ou outra; na realidade ela é uma função da relação.”. (Bion, em ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, 1970).

Uma mulher que quando criança possa não ter recebido a dedicação necessária e tenha sentido que foi privada dos cuidados por parte de sua mãe pode ter sua inveja potencializada. Essa mulher hoje, ora sendo mãe, pode sentir inveja (mesmo que inconsciente) de seu filho e negligenciar os cuidados à ele, estendendo assim a inveja para a próxima geração. Tendo como pressuposto que a inveja é elemento constitucional da vida do bebê, já que a mãe possui tudo que ele necessita e deseja, essa mãe deve ser idealizada e a falta da satisfação esperada pelo bebê será interpretada por ele como sendo uma expressão de maldade da mãe, gerando assim, a inveja.
O sujeito invejado só pode ser atingido pelo invejoso, tanto com as tentativas de depreciação, quanto nas tentativas vorazes de ser esvaído por ele, através do interesse que se possa conservar no que o invejoso sente ou pensa. Na medida em que o sujeito se desinteressa pela relação, a inveja perde a força até se desfazer.

BÍBLIA CATÓLICA. Versão eletrônica 1.0, 2005.
Freud. S.  NOVAS CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE Vol. XXII(1933 [1932])
KLEIN. M. INVEJA E GRATIDÃO. Rio de Janeiro: Imago Edi¬tora, 1957.
MARTINO, Renato Dias. PARA ALÉM DA CLÍNICA.Renato Dias Martino - 1. ed. São José do Rio Preto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
_____ . O LIVRO DO DESAPEGO, 1. ed. São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2015.




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terça-feira, 31 de outubro de 2017

II Jornada do GEPA (Grupo de Estudos Psicanálise do Acolhimento)


II Jornada do GEPA (Grupo de Estudos Psicanálise do Acolhimento)
Se você assim como nós ama conhecimento e compartilha do olhar da psicanálise, nós nos encontramos então no dia:
11/11/2017 Dás 09:00 - 17:00
CIESP AV. Clóvis Oger, 706 - Distrito Industrial, São José do Rio Preto
Entrada: 15,00 reais + 1 litro de leite para doação
Inscrições antecipadas pelo link: https://goo.gl/r3B6Zy 
Ou pelo e-mail: prof.renatodiasmartino@gmail.com
Informações pelo fone (17) 3011-3866
Confira nossa programação:

09:00 -" O ANALISTA CONTINENTE: DO ATAQUE AO VÍNCULO E AS QUESTÕES TRANSFERÊNCIAS". Uma reflexão sobre os possíveis ataques há dupla frustrada (analista e analisando) ao vínculo K. Um pensar sobra a transferência e a contratransferência dentro do setting terapêutico.
Palestrante: Jessica Kemelly Marques
10:00 - "SONHAR: TEORIAS DAS EXPERIÊNCIAS EMOCIONAIS” Para além das teorias dos sonhos, pensar sobre a importância da dupla analista- analisando no processo de sonhar os sonhos não sonhados e os sonhos interrompidos.
Palestrante: Paulo Henrique de Oliveira
11:00 “O QUE NOS INTERROGA NA SUPERVISÃO?" Considerações sobre o lugar da prática de supervisão na formação do analista e sua importância na clínica. A função do terceiro, que o supervisor vem a ocupar.
Palestrante: Maicon José Jesus de Vijarva
12:00 - PAUSA PARA ALMOÇO.

*Presença do Food Truck : Bendito Bauru
*Entregas de marmitas fitness e low carb exclusiva para o evento: 
SaborellaFIT (encomendas no dia 10/11/17)

13:00 - "O RECONHECIMENTO DO ERRO COMO DIREITO INERENTE Á HUMANIDADE." A temática tem por objetivo refletir sobre o Direito a partir de um enfoque psicanalítico, em uma tentativa de levar a realidade para onde estão preponderando os subterfúgios ( as evasivas).
Palestrante: César Augusto Costa Ribeiro
14:00 - "DIÁLOGOS ENTRE ARTE E PSICOTERAPIA." A relação psicoterapêutica com a arte amplia não só o universo de possibilidades de investigação, mais também a compreensão sobre o psiquismo humano e suas estruturações por modelos reverentes de contato com o sensível.
Palestrante: Pedro Volpato
15:00 - "DA ADOLESCÊNCIA CONTEMPORÂNEA: SOBRE O PROCESSO PRIMÁRIO DE FUNCIONAMENTO MENTAL." Reflexões acerca da adolescência na contemporaneidade pelo viés da relação entre a teoria freudiana de funcionamento psíquico e observações das dinâmicas sociais e suas influencias sobre adolescentes.
Palestrante: Amanda Carvalho
16:00 – “DO NARCISISMO FUNDAMENTAL” Cogitações sobre o amor de si mesmo ao amor do outro. A base das relações afetivas na perspectiva da autoestima e seus desdobramentos no vínculo com o outro.
Palestrante: Prof. Renato Dias Martino
17:00 - Sorteio de brindes, livros e revistas de psicanálise. Encerramento do evento.



sábado, 21 de outubro de 2017

SENTIR A DOR OU SOFRER

É característica primitiva do funcionamento mental a de evitar desconfortos à qualquer custo e Sigmund Freud (1856 – 1939) bem nos orientou sobre isso em seu texto FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, de 1911. Tanto na predominância do funcionamento mental dos bebês, quanto em certa cota do funcionamento do adulto, a tolerância ao sofrimento é capacidade pouco frequente no ser humano comum e menos ainda no sujeito quando adoecido ou perturbado.
O termo “sofrer” tem, pelo menos na língua portuguesa, usos distintos em seu significado e esse ensaio busca a reflexão dessa diferenciação, geradora de equívocos, em potencial. O conceito de sofrimento pode ser encontrado na tentativa de indicar o ato de sentir dor, sendo ela física ou psíquica. Nesse aspecto do termo, o sofrimento diz respeito à experiência de padecer por certa agonia. Por outro lado temos o termo no sentido de “passar por”, ou ainda “experimentar”. A partir desse segundo vértice, o conceito diz respeito à experiência de movimento, indicando mudança e transformação, num “sofrer o processo”.
A dor deve acontecer, a priori, independente da escolha, a não ser que seja infligida pelo próprio sujeito, num ato de auto-agressão, onde o sujeito opta por sentir dor. Em se tratando da dor que acomete sem que seja provocada é possível tão somente escolher não sofrê-la, entretanto, isso não garante que deixe de existir. Na realidade, pode acontecer que a dor se potencialize por ser ignorada. Assim como Freud apoia que a libido se manifesta através da pulsão de vida, impulsionando o sujeito numa busca constante, antes dele, Athur Schopenhauer (1788 - 1860) via a Vontade como algo que reclama satisfação, mas que, no entanto, nenhum fim alcançado pode colocar fim.
Schopenhauer propõe que, “de acordo com o conjunto dos nossos pontos de vista, a vontade é, não somente livre, mas também onipotente...” (SCHOPENHAUER, 1819). Esse importante filósofo, que tanto inspirou Freud na elaboração dos pressupostos psicanalíticos relaciona o sofrer com a Vontade e afirma que: “Quando surge um obstáculo entre ela e o seu escopo momentâneo, chamamos a tal obstáculo sofrimento; seu bom sucesso ao invés é o que chamamos satisfação, bem-estar, felicidade.”. (SCHOPENHAUER, 1819).
A vontade de viver é, então, segundo a perspectiva de Schopenhauer, fonte de sofrimento, incidindo que viver é sofrer.
Sendo o sofrimento inseparável da própria vida, aquele que busca a todo custo, evitar sofrimentos, acaba por encontrar a morte.
Grande parte das queixas que chegam aos consultórios psiquiátricos está enquadrada em certa demanda muito mais adequada às psicoterapias do que à administração medicamentosa. São demandas de reconhecimento de elementos não pensados e que carecem serem assim submetidos ao processo de reflexão. Elementos que são geradores de desconforto como sinal da necessidade de serem elaborados.
Nesses casos, depois de medicado o sujeito perde grande chance de ser tratado pelo processo psicoterapêutico, já que o desconforto emocional (dor) que é o sinal da necessidade de transformação e configura-se na grande motivação para o exercício do pensar, diminui drasticamente ou mesmo cessa. Isso, pois a introdução do medicamento deve diminuir a dor. Mesmo em psicoterapia é muito comum a procura por tratamentos psicoterapêuticos que prometam algum método em que não se tenha que sofrer.
Em sua obra ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO, Wilfred R. Bion (1897 - 1979) chama a atenção para certos pacientes que apresenta maior dificuldade no contato com a realidade em seu próprio estado mental. Essa ordem de pacientes apresenta tamanha intolerância a dor ou a frustração, “que elas sentem a dor, mas não a sofrem; assim, não é possível dizer que elas descobrem a dor.”. (Bion, 1970). Não se permitindo sofrer, o processo psicoterapêutico fica obstruído em inúmeros aspectos. No sujeito que se encontre nessa situação, resistências devem se erguer sempre que algum elemento surja no sentido de revelar conflitos que gerem desconforto e assim careçam de serem sofridos para que haja elaboração.
“O paciente que não sofre dor fracassa em ‘sofrer’ prazer, o que lhe nega o incentivo que de outro modo poderia ser proveniente de algum alívio acidental ou intrínseco.”. (Bion, 1970). O sujeito pode experimentar da dor, mas se recusa a sofrê-la. Ainda que pareça sofrer ou mesmo verbalizar que esteja sofrendo, ainda assim está somente sentindo a dor, mas não a sofrendo, por medo de sofrer. “A intensidade da dor do paciente é um fator contribuinte para seu medo de sentir dor.”. (Bion,1970). Fugindo de sofrer a dor, só faz por potencializá-la, além de impedir que o processo se realize.
Sofrer implica em transformação e as transformações no nível psíquico não têm retorno. Esse é um motivo obstrutor da predisposição para que a transformação possa fluir. Uma vez desenvolvida a cota de maturidade não pode haver retrocesso em que cada passo em frente, no amadurecimento configura-se na renúncia de formas imaturas de funcionamento. A imaturidade emocional é caracterizada pela busca desmedida do prazer, assim como na evitação a todo custo das frustrações, enquanto o amadurecimento implica em sofrimento.
Para SCHOPENHAUER os anseios nascem da necessidade que se manifesta como desagrado. Para esse pensador há, “... sofrimento até que tal aspiração não seja satisfeita; mas não existe satisfação durável: esta não é senão o ponto de partida duma nova aspiração, sempre embargada por toda maneira, sempre lutando, portanto, sempre causa de dor: para ela jamais um escopo final, jamais para ela um limite ou termo de sofrimento.”. (SCHOPENHAUER, em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, 1819).
Schopenhauer, reconhece a Vontade como o fator incognoscível, assim como Immanuel Kant (1724 —1804) propunha sobre a coisa-em-si. Mas, que apesar de ser incognoscível é, para Schopenhauer, experienciável, no que ele se afasta da proposta de Kant. Por outro lado, Schopenhauerse aproxima do pensamento oriental, das escrituras védicas e budistas, que pelo vértice religioso, percebe o mundo sensível na materialidade das coisas, como ilusão (Maya) que mascara uma realidade que é una e transcendente.
Buda ensinou sobre As Quatro Nobres Verdades, referentes ao sofrimento que estão no cerne da vida. Na tradução do sânscrito dukkha, mais especificamente insatisfação.
A imaginação de que existam formas que propiciem o crescimento sem que haja sofrimento, é sustentada pela incapacidade de se responsabilizar pela maturação dos processos mentais, que governa o desenvolvimento da personalidade.




FREUD. S. FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, Edição Brasileira das Obras Psicológicas Completas - Edição Standard Brasileira, IMAGO (1980), 1911.
SCHOPENHAUER, Arthur. O MUNDO COMO VONTADE E COMO REPRESENTAÇÃO. Tradução Heraldo Barbuy. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1819/2012.
SUTRA AVATAMSAKA (Sutra da Guirlanda de Flores),  Capítulo 2 do livro BUDISMO SIGNIFICADOS PROFUNDOS, Venerável Mestre HsingYün, Escrituras Editora, 2ª edição revisada e ampliada, São Paulo, dezembro de 2011.








Psicoterapeuta e  Escritor

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