domingo, 23 de abril de 2017

SOBRE O BULLYING: Entrevista para a Revisra Bem-Estar, do jornal Diário da Região de São José do Rio Preto - SP.

Juliana Ribeiro - A série da Netflix, 13ReasonsWhy, teve estreia dia 31/03 e já tem record de audiência. É uma série que retrata como o bullying na adolescência pode causar grandes estragos. No Brasil não há um levantamento sobre o tema, mas diversos estudos em outros países apontam o crescimento da depressão entre os jovens. Podemos dizer que esse aumento está relacionado ao bullying sofrido nas escolas e quais outros fatores?

Prof. Renato Dias Martino - Na maioria dos casos o sujeito que sofre grande desrespeito, violência ou qualquer que seja a agressão no ambiente escolar, já tem um histórico de relacionamento malsucedido, dessa mesma qualidade, em casa. Na realidade tudo aquilo que ocorre fora de casa consiste em uma extensão das experiências ocorridas no seio do lar. Isso tanto em relação às experiências saudáveis quanto às vivencias malsucedidas.

Juliana Ribeiro - Quais as consequência negativas que o bullying pode trazer na vida de um jovem?
Prof. Renato Dias Martino - A mente tende a repetir as experiências malsucedidas, como uma nova tentativa de elaboração. Sigmund Freud (1856 – 1939), em seu texto RECORDAR, REPETIR E ELABORAR de 1914, nos alerta que tendemos a repetir em forma ação impensada, tudo aquilo que é desconfortável de se recordar. “Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo.”. (Freud, 1914). De tal modo, a violência que, muito provavelmente já ocorria no lar, deve se repetir na escola e da mesma maneira, acaba se desdobrando vida a fora. Manifestando-se na vida adulta, como assedio moral e psicológico no ambiente de trabalho. Na realidade, a violência pode ser percebida desde o berçário até os ambientes de casas de repouso de idosos, independente da idade cronológica.
Essa ordem de experiência pode se repetir através de dois modelos principais: a) a primeira, onde a criança repete a hostilidade consigo mesmo, culpando-se pelo fracasso de sua vida. Dessa maneira retraindo-se das experiências externas não conseguindo mais confiar no outro. b) Num segundo modelo, de forma inversa, onde o sujeito que sofreu a violência desenvolve características semelhantes as do que o agrediu, se tornando tão violento quanto.
Poderíamos também pensar naquela criança que hoje é agredida e que foi privado da presença paterna.  Aquele que o defenderia e assim traria um modelo para que se desenvolvesse um recurso de autodefesa. Também ausência paterna poderia ser geradora da falta de limite no que agora se coloca na posição de agressor. 

Juliana Ribeiro - Adolescentes que praticam bullying, praticam de forma consciente?

Prof. Renato Dias Martino - O conceito de consciência é um conceito muito complexo. Nunca é possível saber o que realmente é consciente ou não, quando avaliando o outro. No entanto, me parece que se tornar consciente dos seus atos é o que liberta o sujeito da ação repetitiva. Essa regra não deve se aplicar ao sujeito onde exista uma perversão grave, ou mesmo uma psicopatia, que o levaria agir de forma sádica, violento conscientemente, pelo prazer de fazê-lo.

Juliana Ribeiro - Qual a responsabilidade da escola?

Prof. Renato Dias Martino - Não acredito na responsabilização da escola por questões que deveriam ser cuidadas no seio da família. Nenhuma escola pode proporcionar aquilo que faltou no lar. É claro que existem medidas para que se possa tomar para amenizar a violência dentro da escola, mas casos em que possa ter havido uma real reparação do dano, por conta de uma intervenção da escola, são raros.

Juliana Ribeiro - A importância da atuação familiar?
Prof. Renato Dias Martino - Total! A responsabilidade é toda da família, por mais que vivendo em nosso tempo, isso possa ter sido terceirizado muito cedo para creches, escolas, faculdades, chegando às casas de repouso para idosos. Assim como na planta, a raiz tem função de base, onde todas as substancias que nutrem a vida são oriundas dali, também a família tem função análoga, na vida humana. Esse problema tem origem no lar e só a partir do lar é que pode se reparar qualquer dano. 

Juliana Ribeiro  - Na era digital esse jovens estão se sentindo ainda mais só?
Prof. Renato Dias Martino - Não vejo dessa forma. É muito conveniente culparmos os computadores pela solidão originada do despreparo e do egoísmo dos pais. O advento da internet poderia ser um veiculo de enorme expansão da consciência se pudéssemos contar com mais respeito, companheirismo e responsabilização por si mesmo e por aquilo que criamos.

Juliana Ribeiro - Quais são os sinais de alerta que os pais podem ficar atentos?

Prof. Renato Dias Martino - Os sinais são evidentes, o grande problema é a incapacidade dos pais em percebê-los e reconhecê-los, por estarem tão ocupados tentando correr desesperadamente, atrás de sabe-se lá o que; talvez seus próprios umbigos. Existe uma conveniência em não perceber os sinais do sofrimento dos filhos, pois uma vez reconhecidos inicia-se um processo de ter de se responsabilizar por isso. A grande dificuldade em se enxergar a realidade é a conveniência em se manter cego.

Juliana Ribeiro - Para esses jovens, que estão cada vez mais inseguros e, no momento se sentem sozinhos, sem poder confiar em ninguém. Como fazê-los se abrir de forma natural?

Prof. Renato Dias Martino - Essa insegurança é fruto do despreparo dos pais em proporcionar um ambiente que possa trazer o mínimo de estrutura para esses jovens. Falo de um lar que possa contar com a presença dedicada dos pais, onde respeito, afeto e sinceridade sejam atributos fundamentais. Um convívio cotidiano de paz e harmonia. Isso tudo nada tem haver com condições financeiras, já que é possível viver isso dentro de um lar que seja muito humilde. Só através da construção de um ambiente saudável, por se mostrar realmente confiável, pode haver uma real abertura.

Juliana Ribeiro - Há quem acredite que por ser vítima de bullying deve praticar o ato com outras pessoas. Como fazer com que isso não se transforme em um ciclo vicioso?

Prof. Renato Dias Martino - Uma vez instalado o trauma pela violência é muito difícil se desenvolver recursos para se reverter. Nessa experiência a questão da prevenção deve implicar num dispêndio bem menor do que a tentativa de remediar. Ainda assim, a busca por reparação dessa ordem de traumas sempre se encontra no acolhimento vindo da família, aliado ao um processo psicoterapêutico de qualidade.

Juliana Ribeiro - Dá para superar o bullying e sair fortalecido emocionalmente? 

Prof. Renato Dias Martino - Na medida em que se possa contar com um ambiente acolhedor, existe grande esperança de superação. Ainda que cada caso deva ser avaliado separadamente, conforme suas complexidades e particularidades, a disposição de um ambiente acolhedor e livre de julgamento tem sempre poder curativo.

Juliana Ribeiro - Por que quem sofre qualquer tipo de humilhação tem tanta dificuldade de falar, de buscar ajuda? Essas pessoas chegam acreditar que são o que os outros dizem e por isso não merecem ser ouvidas?



Prof. Renato Dias Martino - Depois de ser hostilizado o sujeito tende a se fechar para as novas experiências, e vive uma grande dificuldade em confiar no outro. Isso ocorre, pois cada nova relação que se apresente virá carregada de desconfianças. O sujeito sempre guardará suspeita (imaginária) de que em algum momento, igualmente será hostilizado, de algum jeito. Isso pose se revelar-se na personalidade do sujeito, na melhor das hipóteses, como um grande acanhamento, mas também pode torná-lo uma “eterna vitima” das circunstâncias.  




Prof. Renato Dias Martino
Contato: 17-30113866

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