sábado, 1 de abril de 2017

SOBRE O MEDO DE DESEJAR

Das mutações ocorrentes nas emoções e as consequências dessas transformações.

Texto parte da revista Grandes Temas do Conhecimento PSICOLOGIA, especial MEDOS E FOBIAS.


Os desdobramentos dos elementos constituintes da vida mental provocam naturalmente certa instabilidade que demanda de aprendizado em seu manejo para que seja possível manter um bom funcionamento da mente. Uma experiência emocional que possa gerar um componente psíquico pode então se desdobrar em outro elemento que muitas vezes representa seu contrário. Uma mente inundada por insegurança, por exemplo, pode gerar hostilidade. Na descrição da síndrome de Estocolmo, onde o sujeito é submetido a um tempo prolongado de ameaça, ele passa então a apresentar afinidade ou até carinho por seu agressor.
Dessa maneira uma manifestação psíquica gera uma outra como defesa, configurando assim um conjunto, que é tomado como um complexo com certa coerência. Esses elementos componentes articulam-se entre si em várias vinculações, de subordinação ou não, que por conta disso são de difícil compreensão racional. A relação entre desejo e medo é um bom exemplo dessa ordem de reveses sofridos nas experiências emocionais. O medo parece ser um subproduto do desejo, e essa afirmação torna-se fato na medida em que passa a ser possível perceber que aquele que não deseja nada não teme coisa alguma. 
Ainda que seja o medo da morte gerado pelo desejo de viver, a relação entre esses dois elementos da vida psíquica são inseparáveis quando examinados. Dentro dessa perspectiva, o medo estabelece um elemento constitucional do funcionamento mental daquele que está sendo conduzido pela cautela. Sendo assim, a mente que se encontra saudável terá o medo como integrante do instinto de autopreservação que é manifestado pelo desejo de viver. Esse medo deve originar certa ansiedade, reação à percepção do perigo externo. Por se tratar de um instinto, vai para além do campo racional e pode, com isso, nos orientar, alertando, inclusive, para aquilo que se pronuncia pra além do que é percebido pelos órgãos dos sentidos, pra além das aparências. No entanto, existe outra ordem de relações estabelecidas entre medo e desejo, que não se encontram no âmbito saudável.
Em sua TEORIA GERAL DAS NEUROSES, publicada em 1917, Sigmund Freud (1856-1939) propõe dois tipos de ansiedade. “É possível, no princípio, trabalhar o tema da ansiedade, por um tempo considerável, sem absolutamente pensar nos estados neuróticos. De imediato, os senhores me entenderão quando eu descrever essa espécie de ansiedade como ansiedade ‘realística’, em contraste com ansiedade ‘neurótica’.” (Freud, 1917). Enquanto na ansiedade realística o medo é gerado por uma causa externa real e anuncia assim a capacidade da saúde mental, a ansiedade neurótica acontece por conta de uma desordem no curso do desenvolvimento do pensar, que encontra entraves no andamento de seus desdobramentos. 
Freud formou-se em medicina neurológica, mas apesar disso estruturou o que chamamos de psicanálise a partir da percepção de que grande parte dos pacientes que atendia não tinha a origem de suas enfermidades no corpo físico, mesmo que se manifestassem ali. Por meio de exames clínicos, Freud não conseguia diagnósticos no âmbito fisiológico, sendo que a constituição biológica, em suas funções, conservava um funcionamento coeso, no entanto, a dor e o incômodo ainda jaziam presentes na queixa do paciente. Em sua obra AS NEUROPSICOSES DE DEFESA, de 1894, Freud designou a ordem patológica que percebia em seus pacientes, o nome de neurose, e, nesse caso, mais especificamente, histeria de conversão. Algo que advinha da dimensão do psíquico, mas se manifestava no corpo. “Na histeria, a representação incompatível é tornada inócua pela transformação de sua soma de excitação em alguma coisa somática. Para isso, eu gostaria de propor o nome de conversão.” (Freud, 1894). 
Bem, embora essa proposta tenha sido publicada em 1894, quando a psicanálise ainda engatinhava, mesmo hoje essa intuição freudiana nos serve como um excelente instrumento para pensar nos processos que desencadeiam as patologias mentais. Ora, é indiscutível o fato de que a dor, quando surge no corpo, tem maior poder de convencimento, tanto para nós mesmos quanto para o outro. Por outro lado, enquanto a aflição é psíquica, se encontrando na ordem do não sensorial e não podendo contar com os órgãos dos sentidos para confirmá-la, fica então desacreditada. Um conflito interno com a iminência de transbordar os limites emocionais do eu psíquico e manifestar-se no corpo físico. 
Aqui também estamos tratando, antes de tudo, de algo que se configura como extensão do conflito entre um medo e um desejo. Uma ordem de conflitos que pode promover severas perturbações no funcionamento mental com a geração de inúmeros sintomas. Freud, em seu ESBOÇO DE PSICANÁLISE, publicado em 1940, propõe que “Os sintomas das neuroses, poder-se-ia dizer, são, sem exceção, ou uma satisfação substitutiva de algum impulso sexual ou medidas para impedir tal satisfação, e via de regra, são conciliações entre as duas, do tipo que ocorre em consonância com as leis que operam entre contrários, no inconsciente”. Sem poder tornar-se consciente desse conflito que subtrai suas energias sorrateiramente, o sujeito vive certa batalha inconsciente que acaba por revelar-se nos vínculos. Toma certa prática especial nas relações onde passa a odiar como forma de distanciamento e proteção daquilo que de fato deseja tanto.
Desenvolve de tal modo, um quadro obsessivo, se envolvendo crescentemente com aquilo que na realidade foge compulsivamente. Temos assim um quadro do qual Freud denominou de “neurose obsessiva”. Enquanto essa modalidade de neurose projeta-se no mundo externo, a “histeria de conversão”, em contrapartida, faz do sujeito uma vítima de si mesmo. Instigado por certa culpa, pode-se tornar servil àquele do qual mantém grande ódio. Esse sentimento de culpa do paciente histérico, quando em seu maior nível, é que deve sofrer certa conversão do plano psíquico para o nível orgânico. Dessa forma, passa a representar-se numa patologia no corpo, ou seja, uma doença física onde o sujeito pode encontrar certa via para se
autopunir. Essa dor física, por mais que seja penosa, ainda deve ser menor do que a culpa que carrega. Se antes havia descrédito sobre sua enfermidade, agora fisicamente doente, pode convencer o outro, assim como convencer-se a si mesmo, do seu sofrimento.
Freud introduziu a teoria da repressão a partir da observação dessa ordem de experiências: “A teoria da repressão é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise.” (Freud, 1914). Das tentativas de vinculação com a realidade externa que tiveram desfechos mal resolvidos, são então geradores do movimento de repressão.
O reprimido, junto com os elementos instintuais, estaria contido no nível inconsciente da mente. “O reprimido está condenado, pelas instâncias censoras do ‘eu’ a viver nas profundezas do inconsciente. Mas, amiúde, tenta emergir na personalidade consciente provocando, assim, os sintomas da neurose.” (Martino, 2012). Segundo Freud, as neuroses estão para as perversões como curso oposto do mesmo caminho, pois, quando uma satisfação da libido primitiva não puder ser atendida, pode suscitar uma fixação perversa de satisfação, que na medida em que é reprimida cria uma formação substituta: o sintoma. “Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão.” (Freud, 1905). 
No caso clínico do Homem dos Ratos, publicado em 1909 com o título NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA, o pai da psicanálise expõe as características da neurose obsessiva comparada à histeria. Propõe que a manifestação da neurose obsessiva possa ser considerada assim como na forma da histeria, no entanto, numa configuração muito mais compreensível por revelar-se de forma externa, enquanto a histeria leva o processo psíquico para uma conversão somática. Porém, os pacientes que apresentam esse quadro, diferentemente dos histéricos, dificilmente procuram psicoterapia, ou, quando o fazem, já se encontram num quadro avançado. Os aspectos fundamentais dos transtornos apresentados pelo Homem dos Ratos “eram medos de que algo pudesse acontecer a duas pessoas de quem ele gostava muito: seu pai e uma dama a quem admirava.” (Freud, 1909). Freud propõe que o neurótico não pode perceber as conexões importantes que estabelece, pois as resistências o enganam pelas forças reprimidas, onde o que se revela é o medo, nunca o desejo.
Depois de ter sido reprimido o desejo, é difícil para o sujeito admitir que tenha de fato desejado, ou que possa voltar a desejar, no entanto nunca deixou de fazê-lo. Isso acontece com o paciente de Freud relatado no caso. Ele negava que os medos relacionados à morte do pai correspondessem a um desejo (agora reprimido) de que o pai morresse.
“Conforme a teoria psicanalítica, eu lhe disse, todo medo correspondia a um desejo primeiro, agora reprimido; por conseguinte, éramos obrigados a acreditar no exato contrário daquilo que ele afirmara. Isto também se ajustaria a uma outra exigência teórica, ou seja, a de que o inconsciente deve ser o exato contrário do consciente.” (Freud, 1909).

Testemunhamos, assim, a infindável e inexorável peleja entre o amor e o ódio. Simultaneamente, quando o ódio ocupa o topo da consciência, o amor se mantém encoberto, de forma latente, e vice-versa. Contudo, mesmo estando num estado latente, ainda assim mantém-se muito intenso e definindo “escolhas” na vida do sujeito. Paralisado pela impossibilidade na proibição de integrar amor e ódio, o estado de ambiguidade provoca sintomas de formas diversas configurando um complexo estado transtornado de funcionamento mental. Um complexo que foi gerado por uma experiência peculiar, onde aquilo que um dia constituiu um desejo proibido torna-se exatamente o que desperta o maior desejo, mas agora de forma inconsciente. Esse desejo, por ser inconsciente, amiúde, é impulsionado à ação (atuação) para sua concretização. No entanto, a consolidação tropeça na proibição, gerando assim o medo que se vincula ao objeto desejado. Podemos afirmar com isso que o medo é filho do desejo.
Essa configuração também aparece como base da teoria das posições elaborada por Melanie Klein (1882-1960), em que propõe que, no ego primitivo, presente no início da vida do bebê, existe uma tendência de divisão do seio em objeto bom e objeto mau, como sendo dois objetos separados. Essa seria expressão do conflito inato entre amor e ódio e das ansiedades que dessa experiência decorrem.
“O bebê projeta seus impulsos de amor e os atribui ao seio gratificador (bom), assim como projeta seus impulsos destrutivos e os atribui ao seio frustrador.” (Klein, 1952). Dessa maneira, o seio bom que é desejado é separado do seio mal que é temido, quando na realidade trata-se de um só, um objeto total. Uma experiência que longe de se restringir ao âmbito da primeira infância, configura-se num funcionamento que amiúde experimentamos na vida adulta quando nos colocamos frente a uma decisão (de-cisão) de grande importância. Desejamos um caminho, mas tememos que o outro seja melhor opção. 


Ora, ainda que estejamos aqui tratando de revisão teórica, minha experiência na prática clínica mostrou com clareza a relação existente entre o medo e o desejo, confirmando assim essa proposta da teoria psicanalítica, que por sua vez também não fora desenvolvida de outro lugar que não fosse as experiências clínicas. Nos casos que em atendi, em que o paciente sofrera de abuso sexual na infância, por mais aterrorizante que tenha sido a experiência, ainda assim sentira algum prazer, pelo fato do estímulo de áreas erógenas, hipersensíveis. Por conta disso, agora, quando adulto, o paciente sente medo de que ele abuse de crianças, pois o registro da experiência prazerosa ficara gravada, e então é revivida de forma reativa, ou seja, de maneira inversa. Acontece que por conta da experiência traumática que viveu, hoje ele deseja, por mais que não deseje desejar, e passa a ter medo do desejo que sente.
Porém, a despeito da força do impulso que arrasta para a ação com o objetivo de realização do desejo, o que na verdade pode acalmar o conflito está na possibilidade de reconhecimento do que se deseja e não da consumação, que geraria mais culpa ainda.
“A ideia é que o desejo é um fluxo muito forte de libido (energia psíquica), e carrega em si muito dos conteúdos impensados e impregnados de um narcisismo prematuro. Assim, um pensamento que tenha nascido dessa forma, prematuro, já agia no funcionamento da mente, mesmo sem ainda poder ser chamado de pensamento” (Martino, 2011).
No relacionamento entre pais (ou cuidadores) e filhos, a relação entre desejo e medo revela-se de grande influência. Isso pelo fato de que a criança passa por um longo período de dependência dos pais ou daquele que cuidou dela. Assim, não seria absurdo afirmar que “a forma como o bebê é desejado (mesmo antes de nascer) definirá certos traços em sua personalidade que perdurarão por muito tempo, se não, por sua vida toda.” (Martino, 2011). Existe nessa experiência o perigo de que satisfações frustradas da vida dos pais sejam oferecidas ao filho com a incumbência de satisfazê-los. Dessa forma, o que um dia fora um desejo nos pais, pode-se tornar um medo nos filhos. “Um medo de frustrar aqueles que cuidaram dele e viver um dolorido sentimento de incompetência.” (Martino, 2011). Bem, o reconhecimento do sentimento é o que pode levar ao pensar, e não é surpresa o fato de que isso coincide com a capacidade de adiar a ação. Sobre isso, Freud escreve em 1911, em sua obra FORMULAÇÕES SOBRE OS DOIS PRINCÍPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL, que “O pensar foi dotado de características que tornaram possível para o aparelho mental tolerar uma tensão intensificada de estímulo, enquanto o processo de descarga era adiado.” (Freud, 1911). Isso equivale a dizer que o reconhecer é aterrorizante e o medo de reconhecer se faz novamente presente, relacionando-se ao desejo. Trata-se de uma moção interna que leva a abrir mão da satisfação do prazer que se encontra na realização do desejo. A psicanálise nos ensina com muita propriedade sobre o fato de que, para que exista o pensar, é necessário desistir da satisfação imediata, na tolerância quanto às frustrações.
Na proposta de Wilfred Bion (1897 – 1979), um dos mais importantes nomes da psicanálise contemporânea, o desejo do analista, juntamente com a memória e a ânsia por entender, é fator prejudicial para o desenvolvimento da análise, obstruindo o fluxo saudável do processo psicoterapêutico. “No processo de psicoterapia, o desejo do psicoterapeuta de resolver o problema do paciente, ou mesmo de gratificá-lo por algum motivo, ou ainda o desejo de curá-lo, são prejudiciais ao desenvolvimento do tratamento.” (Martino, 2015). Bion refere-se a uma disciplina que aos poucos torna-se natural, conforme o desenvolvimento da maturidade emocional do analista. Para Bion, não é“suficiente ‘esquecer’: é necessário um ato positivo de abstenção de memória e desejo.” (Bion, 1970). No lugar da memória, do desejo e da compreensão e o que entra é o desenvolvimento do “ato de fé” de que a verdade e a realidade última existem, e isso requer capacidade em tolerar frustrações.  
Segundo Bion, se o psicanalista for permissivo com a intromissão de memórias sobre o paciente, dos desejos do analista e da ansiedade de compreensão sobre os fatos a qualquer custo “ele irá prejudicar sua capacidade analítica. Todo aquele que esteja acostumado a lembrar do que os pacientes falam e a ficar querendo seu bem-estar, terá dificuldade de avaliar o dano infligido à intuição analítica, inseparável de toda e qualquer memória e qualquer desejo” (Bion, 1970).

A busca pela realização do desejo, por mais que se mostre prazerosa, é exatamente a responsável pelo conflito. Portanto, todo esforço para apaziguar e assim reduzir a intensidade do desejo deve converter-se na diminuição do medo. Arthur Schopenhauer (1788-1860) que segundo o próprio Freud é o filosofo precursor da psicanálise, nos alerta sobre a Vontade que nos aprisiona. Mesmo não querendo ter vontade, ainda assim ela persiste, se transformando num medo de agir conforme essa mesma vontade. No pensamento de Schopenhauer, a Vontade tem a primazia em relação ao intelecto e à razão humana, que são produtos das manifestações da Vontade, existindo para justificá-la. Segundo Schopenhauer, a vontade é a essência imutável do homem, e sua razão não tem poder para determinar uma mudança no querer da vontade. A vontade tem origem no desconforto e tem seu retorno na mesma dor. Assim, como propõe em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO, “Tal veemência excessiva do querer é já de per si e diretamente, uma fonte constante de dor. Primeiramente porque qualquer querer, como tal, nasce da necessidade, portanto, da dor.” (Schopenhauer, 1818).
Sendo dessa maneira, toda a busca pela diminuição do desejo converte-se em redução da dor. Sendo que as experiências mais afortunadas são aquelas em que nos sentimos livre das ânsias e desejos desmedidos. Assim como coloca Schopenhauer:
“Por meio da felicidade que então provamos, torna-se-nos possível julgar da beatitude do homem cuja vontade não está, como no êxtase da estética, acalmada apenas por breve instante, mas para sempre, quando está de fato consumado, salvo na derradeira centelha que serve para manter a vida corpórea e que desaparecerá com ela.” (Schopenhauer, 1818).
O desejo está na dimensão material da vida corpórea, que nasce, permanece por algum tempo, crescendo  e se desenvolvendo, produz alguns efeitos nos fenômenos e então passa a definhar, gradativamente, até a morte. Essa parte da existência é de pouca importância para o que é da alma, que por sua vez não se presta aos atributos materiais do espaço ou da temporariedade. Não está aqui ou lá. Não tem passado, nem futuro. O medo de perder é produto do desejo de ter, mas enquanto aquele que deseja ter teme perder, aquele que ama terá pra sempre.
O grande problema é que só se aprende amar na falta do objeto amado. Aquele que ama abre mão do desejo de “ter” o outro em nome do “ser” para o outro. “É então, pela capacidade de tolerar o vazio e desapego do desejo, que se abre a possibilidade para desenvolver a disposição para amar.” (Martino, 2015).
Isso diz respeito a uma constante batalha, pois aquilo que o corpo busca para se satisfazer não interessa à alma e na realidade só faz por desvalorizá-la. Por outro lado, aquilo que nutri a alma está justamente na renúncia dos prazeres do corpo.

O Bhagavad Gita, que faz parte das escrituras védicas da Índia antiga, trata da busca pelo exercício no desapego para a expansão da consciência. No quinto capítulo é revelada a “Sabedoria do Desapego”, onde Krishna, a Personalidade Suprema de Deus, orienta seu companheiro Arjuna, em um momento de insegurança, que “quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado por seus desejos”. Um texto que transcende a aplicabilidade religiosa se estendendo no âmbito filosófico e também psicanalítico, já que trata da experiência do desprendimento e da capacitação da tolerância às frustrações.
“No Bhagavad Gita é retratado um diálogo simbólico, representando o funcionamento interno de cada um de nós, onde o guerreiro Arjuna representaria o ‘eu humano’ (que em algumas traduções se lê ego), cujo reino foi usurpado, e Krishna estaria representando o “eu divino” plenamente realizado, que convida Arjuna a fazer a sua autorrealização, derrotando seus parentes, que se recusam a devolver seu trono” (Martino, 2015).
Um modelo muito bem aplicável no funcionamento da mente, onde a narração retrata a renúncia dos desejos e, em consequência disso, também os medos. Em contrapartida, manter-se ligado ao desejo é viver de ilusões, já que a realidade não é definida pela vontade do humano. Por conta disso é necessária a capacitação para o desprendimento daquilo que se encontra na dimensão do real concreto, num exercício do desapego da materialidade por meio da renúncia do que satisfaz o corpo, mas empobrece e nos distancia da alma. Numa relação afetiva, a confirmação sensorial deve, dentro dessa perspectiva, ser substituída pelo vínculo simbólico, que dispensa a confirmação compulsiva pelos órgãos dos sentidos. O simbólico vai para além da morte, já que é possível se manter vinculado com aqueles que já morreram.

Bion, W. R. (1970). ATENÇÃO E INTERPRETAÇÃO. Imago, Rio de Janeiro, 1973.
Freud, S. (1894). AS NEUROPSICOSES DE DEFESA. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1905).TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1909). NOTAS SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA - O HOMEM DOS RATOS. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1914).A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____(1915). O RECALQUE In: ESCRITOS SOBRE A PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1917). TEORIA GERAL DAS NEUROSES. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
_____ (1940).ESBOÇO DE PSICANÁLISE. Ed. Imago. Rio de Janeiro.
Klein, M. (1969). ALGUMAS CONCLUSÕES TEÓRICAS SOBRE A VIDA EMOCIONAL DO BEBÊ. Em M. Klein, P. Heimann, S. Isaacs & J. Riviere (Orgs.), Os progressos da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. (Original publicado em 1952)
Martino, R. D. O LIVRO DO DESAPEGO - 1. ed. - São José do Rio Preto, SP: Vitrine Literária Editora, 2015.
_______. PRIMEIROS PASSOS RUMO À PSICANÁLISE  - 1. ed. -- São José do Rio Preto, SP : Vitrine Literária Editora, 2012.
_______. PARA ALÉM DA CLÍNICA - 1. ed. São José do RioPreto, São Paulo: Editora Inteligência 3, 2011.
Prabhupada, A. C. Bhaktivedanta Swami. O BHAGAVAD-GITA - Como Ele É. Editora: The Bhaktivedanta Book Trust. 1976.
Schopenhauer, A. O MUNDO COMO VONTADE E COMO REPRESENTAÇÃO, (livro 4), São Paulo: Unesp, 2005 – tradução de Jair Barboza.(Original publicado em 1818)







Prof. Renato Dias Martino  
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